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O Mago do Kremlin – Olivier Assayas

Com base num romance de Giuliano da Empoli, inspirado em personagens verídicas, Olivier Assayas assina com “O Mago do Kremlin” uma viagem à Rússia após a queda da União Soviética, através do percurso de um jovem brilhante que se tornou conselheiro político de Vladimir Putin, antes de cair em desgraça. Paul Dano, Jude Law e Alicia Vikander são os protagonistas da nova obra de um dos grandes cineastas contemporâneos, autor de filmes como “Destinos Sentimentais”, “As Nuvens de Sils Maria”, “Irma Vep” ou “Carlos”.

O que é que o atraiu neste projeto?

Olivier Assayas: Já fiz alguns filmes sobre o poder, sobre a questão da política contemporânea. E o que me apaixonou no livro é que fala disso de uma forma nova. Da maneira como o mundo está a mudar, de como as modalidades da política estão a mudar. E o cinema nunca captou isso verdadeiramente. Deu-me a possibilidade de falar de política de uma forma nova, contemporânea, síncrona com as mutações profundas e perturbadoras do nosso tempo.

É um tipo de atmosfera que há muito o seduz…

Olivier Assayas: A questão do poder e da política é uma esfera abstrata na qual há o humano, mas também há o ideológico. E o humano e o ideológico não se encontram necessariamente; podem facilmente entrar em conflito ou mesmo em contradição. Mas é o humano que faz com que nos interessemos por uma história, que aceitemos os seus princípios e sobretudo que aceitemos segui-la até às suas consequências.

Porque não sabemos bem quem são os bons e os maus…

Olivier Assayas: Pode haver pessoas fascinantes que têm ideias horríveis ou com as quais estamos em profundo desacordo. Há uma citação em que pensei muitas vezes, de George Orwell, que dizia: “Não gosto de mundanidades, não gosto de sair de casa à noite porque tenho medo de encontrar inimigos e acabar por gostar deles.” Quando filmamos o poder, coloca-se a questão: não corremos o risco de o tornar sedutor ou desejável?

Como é que contornou esse risco?

Olivier Assayas: Nunca tentei tornar o poder sexy. Pelo contrário, tive vontade de mostrar precisamente a sua crueldade e brutalidade. Depois, as pessoas têm o direito de se sentir seduzidas pela brutalidade e pela crueldade. Eu não o sou, mas tento representar essas questões da forma historicamente o mais correta possível.

O filme explora o poder contemporâneo e as figuras que mudaram a forma como o mundo funciona hoje. Donald Trump aproxima-se dessas formas de fazer política?

Olivier Assayas: Já há algum tempo que compreendemos bem até que ponto a Rússia de Putin se afastou das normas democráticas, que aliás nunca foram realmente aplicadas durante muito tempo na Rússia. E Putin fechou essa porta de forma ainda mais violenta. E, embora eu tenha sempre tido uma grande aversão pela personagem de Donald Trump, não imaginava até que ponto ele iria tão longe. Aterroriza-me formulá-lo assim, mas hoje vemos a forma como a democracia e o sistema americano se estão a decompor diante dos nossos olhos.

Houve algum filme que o inspirou diretamente?

Olivier Assayas: Vai ficar surpreendido, mas o filme em que pensei foi “A Tomada do Poder por Luís XIV”, de Rossellini. E o Giuliano da Empoli sentiu o mesmo quando escreveu o livro. Aa forma como o poder paralisa os seus opositores utilizando jogos de espelhos, jogos de poder, em que as aparências contam mais do que a realidade. Algo semelhante quando Luís XIV impôs o seu poder.

Houve pressão por falar de pessoas e acontecimentos tão próximos da realidade?

Olivier Assayas: Se a pergunta é se o filme foi difícil, então sim, foi difícil de financiar. Porque, e não me cabe julgar as razões, os estúdios americanos fazem negócios com a Rússia. Muitos parceiros potenciais fazem negócios com a Rússia e não querem criar problemas apoiando um filme cujo conteúdo político obviamente não é favorável ao regime em vigor. Portanto, desse ponto de vista houve obstáculos, e não foram poucos.

E receou reações de pessoas pró-regime?

Olivier Assayas: Isso já aconteceu. Tenho a certeza de que, quando mostrámos o filme em alguns festivais, houve pessoas indesejáveis que o viram. Mas, para responder melhor à sua pergunta: não houve autocensura. Houve antes uma pressão que se manifestou sobretudo de forma económica.

Foi opção desde o início fazer o filme em inglês?

Olivier Assayas: Não foi uma escolha; foi uma condição. Eu teria preferido fazer o filme em russo, teria gostado de o rodar na Rússia, teria sido mais apropriado. Mas era inimaginável. Não tivemos acesso à Rússia, nem aos cenários russos, nem aos arquivos russos, nem aos adereços ou figurinos. Também não era possível trabalhar com atores russos, porque provavelmente ficariam profissionalmente interditos no dia seguinte.

Pode falar um pouco sobre a escolha dos atores?

Olivier Assayas: Desde o início imaginei que a Alicia Vikander seria a Xenia. No filme ela é muito mais presente, mais importante, diria mesmo crucial, do que no livro, onde é apenas uma espécie de silhueta. Paul Dano também se impôs como uma evidência desde o início. Precisávamos de um ator americano com alguma notoriedade, que fosse credível como jovem e também como homem maduro.

O Jude Law é um inesperado Vladimir Putin…

Olivier Assayas: Foi um pouco diferente, porque ele é muito inglês e, no fundo não se parece assim tanto com Vladimir Putin. Mas havia duas opções: ou escolher um ator desconhecido que se parecesse com Putin, ou escolher um grande ator capaz de reinventar Putin. E a escolha de Jude Law impôs-se rapidamente. Ele fez um trabalho extraordinário.

No filme vemos esse período charneira após queda da União Soviética, ao mesmo tempo caótico e cheio de esperança.

Olivier Assayas: Conheço mal a Rússia. Não vou fingir que sou especialista na Rússia pós-soviética, porque não sou. Mas estive lá duas ou três vezes, incluindo uma visita que me marcou muito no início dos anos 90. Encontrei estudantes de cinema, alunos de escolas de teatro, jovens que representavam muito bem a energia daquela geração. Eles tinham vivido sob a pesada herança do estalinismo até 1989 e acreditavam que as portas da liberdade finalmente se abririam. Mas aconteceu exatamente o contrário.

“A Rússia de Putin afastou-se das normas democráticas”

Ainda há esperança?

Olivier Assayas: A Rússia continua a ser um país onde opositores são assassinados, onde existe censura de todas as formas. Não é hoje um lugar onde se tenha a sensação de que a liberdade respira.  Alexei Navalny era um herói. E a coragem da oposição russa é uma razão para acreditar, para ter fé no futuro desse país.

Como cineasta empenhado, como vê a situação atual do mundo em que vivemos?

Olivier Assayas: Estão a acontecer coisas que antes teriam sido inimagináveis. Digo isto num sentido bom e num sentido mau. No sentido mau, estamos confrontados com o pior, um pior que vai para além do que poderíamos imaginar. Mas talvez, da mesma forma, também possa surgir algo melhor que ainda não conseguimos imaginar.

foto: (c) Carole Bethuel

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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