No remoinho das comemorações dos seus cem anos de estudos sobre o audiovisual, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) aproveitou o 46º Festival do Cairo, no Egito, para conceder um prémio honorário de carreira à realizadora húngara Ildikó Enyedi. A sua escolha para essa consagração oferecida por vozes influentes da crítica coincide com a celebração do seu aniversário: vencedora do Urso de Ouro de 2017 por «Corpo e Alma» («Body and Soul»), indicado ao Oscar em 2018, ela completa 70 anos neste sábado. A láurea celebra a sua estética singular, sempre nas franjas da metafísica. Batizada de FIPRESCI 100 Lifetime Achievement Award, a honra será conferida à cineasta no próximo dia 20, antes da projeção de seu aclamado «A Amiga Silenciosa» («The Silent Friend»). Antes dessa cerimónia, no dia 18, Ildikó tem uma masterclass a ser ministrada em solo egípcio.
Em tempos mais do que urgentes de empoderamento feminino em sessões da sociedade ainda assoladas pelo machismo, Ildikó desponta como uma superstar autoral, embora já esteja na ativa desde a década de 1980. Em 1989, saiu de Cannes com o prémio Caméra d’Or por «My 20th Century». Há quatro anos, ela passou por Croisette de novo, em competição pela Palma de Ouro, com um filme magistral: “A História da Minha Esposa”. Esse, vitaminado por uma Léa Seydoux em estado de graça, atraiu um público respeitável.
“Eu venho de um país que pode ser assustador muitas vezes, mas que desenvolveu um cinema muito potente num intervalo de tempo que não necessariamente é o da minha geração. Nos últimos 30 anos, pelo meio dos problemas que eu e meus contemporâneos encaramos, cresceu uma nova turma, com um cinema inovador”, disse a cineasta à METROPOLIS em Cannes.
Ildikò é um dos expoentes de um movimento chamado Outono Húngaro, que explodiu com a consagração de «O Filho de Saul», de László Nemes, em 2015. Dos anos 1990 até hoje, ela rodou curtas, documentários e a versão made in Hungary da série «Em Terapia». “É um orgulho ver que grandes autores cinematográficos estão surgindo da minha nação.”
Em setembro, em Veneza, a Fipresci atribuiu seu Prémio da Crítica à narrativa de «A Amiga Silenciosa», que recebeu também o Prémio Marcello Mastroianni de Melhor Revelação, conferido à atriz Luna Wedler no Festival de Veneza. O seu enredo se desenrola no coração de um jardim botânico em uma cidade universitária medieval da Alemanha, onde se vê um majestoso Ginkgo biloba. Testemunha muda da História, a planta acompanha, por um século, os discretos ritmos de transformação de três vidas humanas. Em 2020, um neurocientista de Hong Kong, dedicado a estudar a mente dos bebés, inicia um experimento inesperado com a antiga árvore. Em 1972, uma estudante é profundamente marcada pelo simples gesto de observar um gerânio e se conectar a ele. Em 1908, a primeira aluna mulher da universidade descobre, pelas lentes de uma câmara fotográfica, padrões sagrados do universo escondido nos vegetais. A partir desse velho gingko, Ildikó nos aproxima do que significa ser humano, em busca por pertencimento.
O Festival do Cairo segue até o dia 21, quando será encerrado pela entrega de prêmios do júri presidido pelo realizador turco Nuri Bilge Ceylan e pela projeção de «A Voz de Hindi Rajab».

