Basil da Cunha prometeu-me, naquela tarde de calor ao pé do Cinema São Jorge, onde dava lugar a antestreia portuguesa do seu «O Fim de Mundo» (2019), de que o seu próximo projeto teria enfoque naquilo que, inconscientemente, negou, a presença feminina. Daí nasceu este «Manga d’Terra», uma projetada curta que cresceu como a fruta do título dando origem a uma longa que desafia e deixa transparecer o trabalho do realizador naquelas andanças pelos bairros da Reboleira. Ou seja, encontrar um escapismo, uma fuga possível perante uma realidade decepcionante e deveras decepcionante, sublinha-se. O enredo segue Eliana Rosa, a personagem como a atriz (tiramos o “não”, por não acreditarmos enquadrar-se neste caso), que partiu de Cabo Verde para Portugal, na busca de uma oportunidade da capital, apenas, como esperando, ficando nas periferias das periferias (num bairro social da Reboleira), e mantendo viva o sonho de cantar, mesmo que o cenário envolto a impeça de o cumprir. Como a própria cantarola em jeito de delírio anti-real, assumindo como um fruto suculento e exótico, a manga, Rosa embarca em duas realidades: na sua, encontrando personagens nocivas, condescendente, misóginas ou psicóticas (outras mulheres incluídas), tudo resumindo entre a ausência de empatia, solidariedade e a discriminação de uma sociedade nada convidativa (os dias que decorrem descortinam esse olhar amedrontado de Portugal aos seus migrantes), e na realidade que sonhara viver, a da musicalidade, ou musical cinematograficamente ambicionado como demonstra perante as danças e cantorias expressadas na tela da televisão, nesse mundo só seu, ela é uma estrela em ascensão, o nascimento de um ídolo de palco à semelhante das ideias vendidas em terras do Tio Sam. Basil da Cunha faz o seu jogo, transforma a música e esses momentos como fugas ao intolerável, ao sujo, ao penoso, e ao mesmo tempo a proteção à sua própria pena. Rosa não quer o nosso lamento, nem ser um mártir, e a sua sinfonia em crioulo a despacha de qualquer vitimização. «Manga D’Terra» é um musical no sentido perfeito da palavra, não desconstruí, usa os seus fins para seguir em frente no seu plano de evasão, e plastificar o miserabilismo, hoje reinado por estéticas frias e austeras, e através dessa renegação garantir para que essas pessoas sonhar com o possível. Do bairro para o Mundo, com encanto e dor, o Cinema a funcionar como é devido.

Título original: Manga d’Terra Realização: Basil da Cunha Elenco: Lucinda Brito, Nunha Gomes, Evandro Pereira Duração: 96 min. Portugal/Suíça, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº107, Junho 2024]

https://vimeo.com/945311645

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