Há todo um programa no título «Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História». Por um lado, o nome evoca, de imediato, lantejoulas vermelhas, espetáculo, vozeirão, dança, pixie cut, longas pestanas postiças. Por outro, “incrível e absolutamente verdadeira história” (do enfático original «A Truly Terrific Absolutely True Story») significa que vamos entrar numa viagem biográfica concebida para dar aquela que se entende como justa dimensão de uma lenda, ao mesmo tempo mergulhando na honestidade tantas vezes dolorosa para quem é nado e criado no interior do show business, em particular, no seio da máquina trituradora de Hollywood.
Se há atriz, cantora e performer que conheceu bem a pressão pública de “ser a filha de” é Liza Minnelli (Los Angeles, 1946): não apenas a filha da muita amada estrela Judy Garland, figura que se fixou no imaginário coletivo como a eterna Dorothy de «O Feiticeiro de Oz», mas também de Vincente Minnelli, um dos mais brilhantes realizadores do musical americano. Esse facto incontornável do ADN surge, naturalmente, como um dos focos do competente documentário de Bruce David Klein. Mas, para algum espanto e desilusão desta espectadora, não se chega a mencionar sequer «A Matter of Time» (1976), o único filme em que o pai a dirigiu, ao lado de Ingrid Bergman. Um projeto malogrado, devido à interferência dos estúdios, mas especial pela sua singularidade… Foi mesmo a derradeira obra de Vincente.

Enfim, esta lacuna não fere a experiência de «Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História» enquanto descoberta de imagens de arquivo e tradicional alinhamento de testemunhos, que conta com a própria em alegres comentários à sucessão de eventos da sua vida. Na verdade, o que queremos é vê-la no palco, a ser terrific na pele de Sally Bowles, em «Cabaret» (1972), performativamente gigante no especial televisivo «Liza with a Z» (1972) ou a arrasar no filme de Scorsese «New York, New York» (1977). De resto, a organização do documentário por capítulos ajuda a perceber melhor o valor, e a valorização, das pessoas por trás da imagem de marca Liza Minnelli.
Da mentora Kay Thompson ao realizador Bob Fosse, passando por Charles Aznavour, a dupla Fred Ebb e John Kander, ou o estilista Halston, a família criativa de Minnelli e a força das suas amizades são a alma deste documentário, que faz questão de a celebrar sem medo e com purpurina, protegendo a intimidade que não pertence à esfera do espetáculo. Ficamos mais perto da jovem que cresceu bebendo inspiração de uma mãe talentosíssima, assim como das rodagens do pai, mas retemos sobretudo a sua inesgotável exuberância, seja a falar ou a cantar. Liza Minnelli nasceu, definitivamente, para ser aquilo que foi, e agradecê-lo com uma homenagem lustrosa é o mínimo que se pode fazer por ela.
TÍTULO ORIGINAL: Liza: A Truly Terrific Absolutely True Story REALIZAÇÃO: Bruce David Klein ELENCO: Liza Minnelli, Michael Feinstein, John Kander ORIGEM: Estados Unidos DURAÇÃO: 104 min. ANO: 2024

