Aquando da chegada de «Na Linha da Frente» aos cinemas portugueses, filme escrito e realizado por Petra Volpe, a METROPOLIS falou com Leonie Benesch, a actriz alemã que o protagoniza.

Perdurará a imagem na cabeça do espectador de um par de sapatilhas novas que Floria, a enfermeira que seguimos em «Na Linha da Frente» [«Heldin»] (2025), retira de uma caixa no início do seu turno. As mesmas sapatilhas, que no início da manhã estarão ensanguentadas e parecerão tudo menos acabadas de comprar, ficarão no hospital, quase como se figurassem a própria Floria e a viagem física e emocional que esta realizou durante aquela noite. Pois também Floria fica, de uma forma ou de outra, no hospital.

Os espectadores, agitados e nauseados, a tentar aclimatizar o corpo outra vez ao seu ambiente circundante, mesmo depois de já não se verem amarrados à cadeira daquela montanha-russa, verão «Na Linha da Frente» como um filme que não só se faz mecanismo a partir dos respirares das vidas-relógio, como é também contexto politizado, um altifalante que fala da significativa escassez de profissionais de enfermagem que a Europa enfrenta.

As principais causas apontadas são o envelhecimento da população, o aumento da exigência, e as pobres condições laborais, que vieram a exacerbar-se com a pandemia do Covid-19. Por causa disto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a União Europeia criaram o “Nursing Action”, uma iniciativa que visa enfrentar essa crise concentrando-se na melhoria das condições de trabalho dos enfermeiros existentes tal como através da recruta de mais enfermeiros para ser possível garantir a resiliência dos sistemas de saúde.

Incitando mobilização, «Na Linha da Frente» estreia-se no Festival de Berlim no início de 2025 e por muitos outros festivais passa até se estrear agora comercialmente em Portugal, colocando o espectador no acontecer do rodopiar exaustivo que é trabalhar num hospital a sofrer com a escassez de enfermeiros durante um turno nocturno. As reacções ao apelo têm vindo a ser significativas seja de profissionais de saúde como da própria crítica de cinema.

Por vídeo-chamada, falámos com a actriz alemã Leonie Benesch sobre tudo isto, horas após esta ter sido nomeada ao prémio de melhor actriz nos European Film Awards pela sua interpretação de Floria.

Metropolis: Bem, antes de mais, parabéns pela nomeação!

Leonie Benesch: Oh, muito obrigada.

Metropolis: Eu vi o filme pela primeira vez em Berlim no início do ano e agora voltei a ele e descobri que continua a deixar-me sem folgo. Porquê este projecto?

Leonie Benesch: O argumento era muito bom, o que é difícil de encontrar. Nota-se facilmente quando um argumento deriva de um bom trabalho de investigação. Era muito claro que Petra conhecia aquele mundo, e que a ambição dela era representá-lo medicamente correcto e o mais próximo possível da realidade. E não há nada mais difícil do que tentar criar ficção que quer estar tão perto da realidade, porque isso pede exactidão. Só lendo o argumento era evidente que era isso que ela queria fazer e é um desafio muito grande. E depois nós falámos muito sobre Floria enquanto personagem, e eu gostava da ideia de tudo isto ser sobre movimento. Ela é como uma atleta. Não há nenhum plano dissimulado, ela não tem problemas do foro mental, essa não é a meta. Ela aparece e ela quer fazer um bom trabalho e ela gosta do que faz. No início do turno ela pensa ‘Eu consigo fazer isto, vai ser difícil, mas eu consigo lidar com isto.’ E depois, aos poucos, lá se inicia o desenredar, que em nada está relacionado com a falta de motivação dela ou com ela não gostar do seu trabalho. Muito pelo contrário. A única coisa que está a provocar a realidade daquelas circunstâncias é o facto de o hospital não conseguir lidar com a escassez de profissionais de saúde. Foi por isso que decidi que tinha que fazer este filme.

Metropolis: Já tinhas lido o livro no qual é baseado antes?

Leonie Benesch: Li-o logo a seguir. Petra disse-me que era inspirado pelo livro da enfermeira alemã Madeline Calvelage (Unser Beruf ist nicht das Problem. Es sind die Umstände: Eine Geschichte, die zeigt, was es heutzutage bedeutet, Pflegekraft zu sein, 2020).

Metropolis: Fez-me pensar muito no filme «A Tempo Inteiro» [«À Plein Temps»] (2021), de Eric Gravel. É o mesmo contra-relógio e a temática afecta-nos a todos de forma universal. Também os nossos hospitais em Portugal estão sobrecarregados e a romper pelas costuras com a mesma escassez de profissionais de saúde.

Leonie Benesch: Está assim em todo o lado.

Metropolis: E é constante. O curioso com este filme é que se foca nos enfermeiros, nos cuidadores. Do cinema à televisão, há muitas histórias a ser contadas, mas são maioritariamente focadas nos médicos. Havia algumas possíveis influências de filmes ou personagens de que falaram sobre antes em preparação?

Leonie Benesch: Não, nada disso. Tudo o que precisava de saber estava no argumento. Na verdade, eu não vejo nada normalmente em preparação para um novo projecto. Isso não é algo que use como fonte de inspiração, e neste caso era algo muito específico. Era importante para mim mover-me como uma enfermeira se move. Acompanhei enfermeiros num hospital perto de Basel, na Suíça, durante cinco dias. Fiz cinco turnos, dois de manhã e três ao final do dia. Felizmente, nenhum nocturno.

E eu estava, mais do que qualquer outra coisa, interessada na forma como eles se moviam, como se sustentavam, porque há regras muito claras num ambiente de trabalho daqueles. Por exemplo nunca correr a não ser em caso de emergência. Ou seja, no resto do tempo, como é que se anda de forma acelerada? Quer dizer, isso não foi exactamente difícil para mim porque eu caminho sempre em passo rápido. Mas há uma forma de nos mantermos, de nos comportarmos. É intrigante para um actor ser colocado na barreira entre ser amigável e acolhedor, enquanto se é profissional e se mantém vigilante ao mesmo tempo. E claro que os profissionais de saúde irão incomodar-te ou enfurecer-te também. Foi crucial para mim ver como é que comunicam entre si por código ou com os médicos quando estão a fazer as rondas, e até como falam com os diferentes pacientes. Cada paciente tem necessidades diferentes.

O que as seguradoras e os hospitais à procura de fazer lucro não têm em consideração é o processo da recuperação. Tudo indica que interacção humana é crucial. O momento em que uma enfermeira olha para a foto de um animal de estimação ou para ouvir falar sobre aquele vizinho…são estes momentos que influenciam a recuperação de um paciente. Mas não se pode pedir uma factura pela qualidade humanizadora. Os enfermeiros têm que documentar cada passo do tratamento, e essa parte não conta. Só conta a parte medicinal das coisas. Mas a realidade do trabalho neste momento é que estes profissionais estão muito ocupados a anotar tudo detalhadamente. Já não lhes resta tempo para interagir com o paciente. Isso também está a arrasá-los. Eles vão para casa e sentem que não puderam fazer o seu trabalho correctamente. E não é por falta de tentativa ou por não quererem, mas porque não houve tempo no meio de tanto trabalho. É incomportável. E depois é como dizias, é perversa a escassez de profissionais de saúde nos hospitais.

E o que a Petra fez é muito importante. A Suíça é famosamente um dos países mais ricos do mundo, e muitos dos hospitais deles estão muito bem equipados, eles têm todas as máquinas necessárias, tudo o que se possa precisar, mas não têm pessoal médico. Por isso o hospital sofisticado não serve de muito quando não é possível contratar pessoas que irão proceder aos cuidados médicos.

Para além disso, este filme trata-se de uma obra feminista. A Petra fala sempre nisso, porque 80% das pessoas que exercem esta profissão são do sexo feminino. A maior parte do tempo as profissões dominadas por mulheres são negligenciadas, tomadas como garantidas, mal remuneradas, subvalorizadas. Petra conta sempre a história que aconteceu há uns anos na Suíça, quando de repente havia a ameaça de uma carência de pilotos. E na altura o governo prontificou-se a resolver o problema. Cada piloto recebeu 60,000 francos suíços e eles dispuseram incentivos para a profissão ser mais atraente. Agora a questão é: os pilotos são maioritariamente do sexo masculino. É nitidamente um problema sexista, porque cuidar de pessoas é tradicionalmente algo que é esperado que as mulheres façam, e gratuitamente.  

[Leia a versão integral da entrevista na edição de Dezembro da revista Metropolis]

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