Em «Kontinental ’25» (2025), o realizador e argumentista Radu Jude parte de um gesto administrativo – um despejo legal, executado segundo as regras – para expor um sistema onde a violência não precisa de excessos para ser eficaz. O filme não constrói um drama clássico nem procura culpados evidentes: observa, com uma frieza quase desconcertante, como a ruína de um indivíduo pode ser absorvida sem atrito por uma lógica económica que continua a funcionar.
O que se impõe desde o início é a sensação de que a pobreza, longe de ser um desvio, é parte integrante de um mecanismo maior, onde o crescimento e o luxo de uns dependem silenciosamente da exclusão de outros. Jude não sublinha, não explica, não redime. Limita-se a colocar o espectador perante um funcionamento que reconhecemos, talvez com desconforto, como normal.

A partir desse ponto de partida, «Kontinental ’25» (2025) acompanha Orsolya (Eszter Tompa), responsável por executar o despejo de um homem sem-abrigo (Gabriel Spahiu) num prédio em processo de valorização imobiliária, nos arredores de Cluj. A reação trágica do homem, logo após a expulsão, não desencadeia uma investigação nem um arco de redenção narrativa; funciona antes como um acontecimento que se infiltra lentamente na vida da protagonista, abrindo fissuras num quotidiano aparentemente estável.
Jude inscreve esta história num contexto muito concreto: o de uma Europa urbana atravessada pela especulação, pela burocracia e por discursos contraditórios sobre responsabilidade social. As personagens circulam entre trabalho, família, instituições e conversas ocasionais, procurando dar sentido a um acontecimento que o próprio sistema trata como colateral. O filme constrói assim o seu contexto não através de explicações, mas da acumulação de situações e vozes que revelam uma normalidade inquietante, em que a tragédia individual nunca é suficiente para interromper o curso das coisas.
Após esse acontecimento, o filme desloca o seu foco para Orsolya, não como centro emocional clássico, mas como ponto de passagem entre o ato e as suas reverberações. Em «Kontinental ’25» (2025), a protagonista não entra numa espiral dramática evidente: continua a trabalhar, a circular entre espaços familiares e institucionais, a ouvir opiniões que procuram enquadrar o sucedido em molduras morais confortáveis. É precisamente nessa continuidade que o filme se torna mais incisivo. Orsolya surge como uma executora sem poder real, um elo intermédio onde a regra abstrata ganha forma concreta, mas onde a responsabilidade é rapidamente diluída. Jude filma-a menos como indivíduo em crise do que como figura funcional, alguém convocado a suportar o peso ético de decisões tomadas muito acima dela, num sistema que precisa de rostos humanos para aplicar medidas desumanizadas sem nunca se expor diretamente.

Em torno desta figura, o filme constrói um coro de vozes que oferecem explicações, consolos e racionalizações. Essas reações, longe de abrirem espaço para transformação, funcionam como mecanismos de normalização: ajudam a integrar o choque na rotina, a tornar o intolerável administrável. A empatia manifesta-se, mas permanece inofensiva, incapaz de alterar o curso dos acontecimentos ou de questionar as estruturas que os produzem. Em vez de confronto, há adaptação; em vez de rutura, comodismo.
É neste terreno ambíguo, entre o desconforto moral e a aceitação prática, que «Kontinental ’25» (2025) desenha o seu retrato mais perturbador de uma sociedade que aprende a conviver com as suas próprias ruínas, desde que estas não interrompam o crescimento em curso.
Título original: Kontinental ’25 Realizador: Radu Jude Elenco: Eszter Tompa, Annamária Biluska, Marius Damian Origem: Roménia Duração: 109 minutos Ano: 2025

