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Pai Mãe Irmã Irmão

Dois irmãos separados pelos seus percursos existenciais e profissionais são reunidos pelo realizador e argumentista Jim Jarmusch num carro que atravessa as belas paisagens do mais do que provável Nordeste dos EUA (a localização nunca será completamente revelada, mas o look exterior e as idiossincrasias das personagens não deixam grande margem para dúvidas). Este será o arranque de um filme intitulado «Father Mother Sister Brother» («Pai Mãe Irmã Irmão»), 2025, que garantiu o Leão de Ouro ao cineasta Jim Jarmusch, considerado independente no seu país e, na Europa, autor de corpo inteiro.

Os irmãos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik), vão ao encontro do pai que vive numa cabana situada no meio de uma floresta remota “naturalmente” simpática, e como a acção se passa no Inverno, rodeada de verde e de neve e não muito distante de um lago gelado. Tom Waits representa a velha e desgrenhada figura paterna, que após a morte da mulher se faz passar por eremita e que será antes e depois da reunião com os filhos alvo de interrogações sobre o modo como consegue, sem recurso a receitas da segurança social, sobreviver com um mínimo de conforto e qualidade. Entretanto, Jeff acaba por confessar a Emily que vem ajudando o pai nesse particular. E como prova disso mesmo, uma vez a família reunida no interior de uma habitação funcional mas muito frugal, Jeff oferece ao velho patriarca, aparentemente carente de um mínimo de mimos e de luxos, um cesto com produtos ditos gourmet, embora neste capítulo Jim Jarmusch devesse cuidar melhor dos aderecistas que a produção contrata, pois o dito cabaz parece uma daquelas prateleiras onde se acumulam os produtos que os supermercados querem despachar com etiquetas de saldo. Se um filho meu me deixasse em casa algo de semelhante, garanto que lhe dava a provar uma lata de sardinhas com data expirada de para aí uns dois anos, porque sempre ouvi dizer que “amor com amor se paga”. De resto, palavra puxa palavra, conversa mole para aqui e acolá, lá se vai desvendando um pouco da vida de cada um, sem, no entanto, se chegar a lado nenhum.

Retrato cáustico das relações familiares que se dissipam na memória do passado sem construir um futuro certo ou radioso? Se era essa a intenção, «Pai Mãe Irmã Irmão» constitui um retrato impiedoso e muito lúcido de uma praga dos nossos dias, o défice de comunicação. Mas Jim Jarmusch não se ficou pela superfície das coisas, e mesmo durante a por vezes monossilábica conversa entre pessoas do mesmo sangue, introduz o pauzinho na engrenagem que faz o espectador começar a duvidar da validade do que está a ver e ouvir. Não será aquilo que parece o mais real do real, no fundo, um manto de mentira que esconde um nada inocente jogo de máscaras? Teatro da vida, pois então! Pois bem, fiquem atentos aos derradeiros minutos deste primeiro episódio, na prática um conto moral, para saber que portas se abrem e quais os dados viciados que determinaram o resultado final da roleta de emoções. Não gosto de fazer os filmes dos outros, mas se fosse eu acabava o segmento levando até ao limite a subversão subliminarmente prometida e para isso usava a imagem de marca de um dos protagonistas. Dava-lhe palco, e a partir do ambiente gerado pela narrativa de uma boa canção (na onda das que se encontram no álbum “Nighthawks at the Diner”) lançava algumas das personagens das outras duas histórias. Diga-se a propósito, que as composições interpretadas por Anika e pelo próprio Jim Jarmusch, que preenchem a banda sonora musical, sobretudo “Spooky”, cumprem de forma exemplar função algo similar. Mas o realizador não sou eu e por isso para o segundo episódio atravessamos o Oceano Atlântico e saltamos para Dublin, na Irlanda.

Mais uma vez somos enfiados no interior de não um, mas dois carros com duas personagens. Desta vez são duas irmãs, Lilith (Vicky Krieps) e Timothea (Cate Blanchett), muito diversas no modo de ser e estar, que se dirigem para casa da mãe (Charlotte Rampling), uma muito bem instalada escritora. Desde cedo percebemos que nada une as irmãs e mesmo a relação com a mãe parece ser um favor que fazem a si próprias para apaziguar a má consciência de não a visitarem com maior frequência. Durante a muito encenada cerimónia anual do chá, que a mãe preparou com burocrática simetria de iguarias (magníficos doces, pelo menos no seu aspecto exterior), assistimos a uma conversa de surdos em que as partes mais novas debitam as suas razões para serem o que são no seio de um quotidiano sem graça especial. E regressamos ao jogo de máscaras, onde se lançam as cartas de expedientes para esconder a realidade, como será o caso da irmã mais nova que finge um posicionamento económico que na verdade não tem e por isso acaba com grande descaramento e pouco jeito a cravar a progenitora para lhe chamar um Uber. No derradeiro plano vemos Charlotte Rampling a despedir-se das filhas, e quando a realização opta por enquadrá-la em plano médio, ficando sobre ela e só ela, a sensação que a actriz nos dá passa pela visão da serenidade e alívio estampada no seu rosto. Fica a clara ideia no ar de que a mãe será a primeira a rezar aos santinhos para que aquela reunião de estranhos que não o deviam ser aconteça apenas uma vez por ano, quase arriscaria dizer, se possível nunca mais! Já o disse a propósito do segmento anterior, e repito aquilo que interpreto como um dos fios condutores deste projecto: neste segundo conto moral, volta-se a falar da ausência de comunicação e de certo modo de um pulsar de morte, ou seja, da morte que prevalece em vida quando a esta se sobrepõe o silêncio.

No último episódio viajamos para mais perto, Paris. Na capital francesa o realizador volta a enfiar-nos dentro de um carro. No interior, a irmã Skye (Indya Moore) e o irmão Billy (Luka Sabbat). São gémeos e dirigem-se para casa do pai, que ao morrer deixou um apartamento vazio mas cheio de memórias que ambos irão partilhar, pouco a pouco, como fragmentos de uma vida que viveram juntos e de que já não se recordavam após anos de separação familiar. Para os irmãos agora órfãos, como sucede nestes casos, objectos na aparência banais ganham uma importância que não seria de esperar, como fotografias, desenhos de infância, documentação de duvidosa solidez legal, e ainda um surpreendente e valioso Rolex, relógio, aliás, que será o ponto comum aos diferentes episódios de «Pai Mãe Irmã Irmão» (para além de uns rapazes e raparigas de skate). Mais não digo, para não desvendar sobretudo a sua primeira e deliciosa aparição. Por fim, Skye e Billy não sabem o que fazer do que resta de material do legado paterno (e diria ainda mais do materno de que pouco falam) e neste contexto o lado espiritual da relação marcada pelo conceito de os gémeos sentirem a dor um do outro irá perdurar na prefiguração de um luto que se prolonga até ao início do genérico final. Mais uma presença da morte, apesar da hipótese da comunicação entre iguais pairar como um assombro no ar.  

Teoricamente, um leão devia rugir anunciando aos sete ventos “aqui estou eu”. Este Leão de Ouro de Veneza não sei se cumpre esse pressuposto e muito menos a missão a que se propunha, mas não podemos dizer que seja um mero “miau”. Há qualidades inerentes no domínio muito económico da linguagem cinematográfica, há apontamentos de representação que vale a pena seguir, os enquadramentos são cuidados e os minutos não pesam ao longo do visionamento. Há mesmo a consciência de que filmes destes podem resultar sem recorrer a mega investimentos financeiros, quase diria que podiam ser financiados pelo ICA, e os produtores nem precisavam de “incomodar” a RTP. Numa palavra, são filmes que permitem alguma liberdade e margem de manobra criativa. O problema aqui é outro e será sempre o mesmo, ou seja, quando puxamos pela memória e nos lembramos com saudades dos filmes que Jim Jarmusch nos deu a ver, obras que consolidaram o seu nome no panteão do cinema de autor, por exemplo, «Mistery Train», 1989, «Night on Earth», 1991, «Dead Man», 1995, «Broken Flowers», 2005, e «Paterson», 2016, para citar alguns dos que mais aprecio. Estará ele a precisar de se enfiar num carro e regressar ao pretérito mais do que perfeito, afinal não muito distante da nossa memória cinéfila? Se necessário for, pedimos subsídio extra para lhe pagar a gasolina e as portagens…!

Título original: Father Mother Sister Brother Realização: Jim Jarmusch Elenco: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps  Duração: 110 min. EUA/Itália/França/Irlanda/Alemanha, 2025

Foto: © Vague Notion 2024_Frederick Elmes

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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