Em «Homem-Aranha: Um Novo Dia», Peter Parker teve as suas diretrizes recalibradas. Enfim, um filme com o peso que o personagem mais querido da Marvel merece. Desde o início, existe um embate muito forte entre o herói e o ser humano. Parker, após o feitiço realizado pelo Dr. Estranho, torna-se um completo desconhecido. Ninguém o conhece, nem mesmo MJ, o seu interesse romântico, e Ned, o seu melhor amigo.
Preso à solidão, no seu pequeno e escuro apartamento, Parker passa a tratar a identidade do Homem-Aranha como a sua primeira pele. Agora, ele é um amigo do Estado, agindo em conjunto com a polícia, mantendo uma relação próxima com a detetive DeWolff, que se preocupa com o tamanho da sua entrega à luta contra o crime. A fotografia é precisa ao retratar essa nova fase, assumindo um tom soturno. As sombras marcam parte do rosto do protagonista, expondo o seu dilema existencial e a dor de não conseguir expressar aquilo que sente. O plano em que o vemos à chuva, após descobrir que MJ tem um namorado, completamente entregue é um retorno à beleza melancólica que sempre rodeou o aranha. Momentos antes, no apartamento de MJ, durante o “reencontro” com os velhos amigos, o diretor Destin Daniel Cretton opta por uma baixa profundidade de campo, isolando Parker na festa – é o tipo de subtileza que confere consistência a um arco inteiro.

A cada pancada sofrida, a necessidade de vestir a máscara se torna maior. O argumento encontra uma solução muito interessante para conectar ambas as personas: o DNA aracnídeo começa a tomar conta de Parker, proporcionando mudanças importantes no seu organismo e na intensidade dos seus poderes. Emocionalmente desnorteado, o protagonista também perde o controle sobre o próprio corpo, sendo obrigado a lidar com tais alterações. Rejeitar ou abraçar a “criatura” que há dentro de si? Assim como o Homem-Aranha, Parker precisa decidir se seguirá na solidão ou se tentará resolver as questões sociais que o atormentam. São arcos simultâneos e que sintetizam o cerne da narrativa: o herói precisa ser altruísta nas suas ações e pensamentos, aprendendo a lidar com novos poderes, o que não significa que o ser humano deve se anular.
Parker é, antes de qualquer coisa, uma grande pessoa. Ele é o jovem apaixonado, o sobrinho carinhoso e o amigo nerd solidário. Deixar tudo para trás é um movimento que vai contra a natureza humana. Nesse sentido, a adição da telepata Jean Grey, interpretada por Sadie Sink, é primordial. Eu não ligo se existe conexão entre os personagens nos quadrinhos. De um ponto de vista narrativo, Grey ocupa um espaço importante, introduzindo a ferrenha luta que os mutantes enfrentam pela aceitação. A princípio, inimiga do Homem-Aranha, ela demonstra ter motivações justas. A força de Grey para respeitar a sua mutação serve de combustível para o protagonista aceitar o seu lado aracnídeo. Da mesma forma, a sensibilidade de Parker é fundamental para que Grey não se desumanize. Outro personagem relevante, que funciona como alívio cómico e principal camarada do protagonista, é Frank Castle, o Justiceiro. Jon Bernthal tira o papel de letra, construindo uma casca de sofrimento ao mesmo tempo em que arranca risadas do espectador. O único ponto fraco é Bill Metzger, o verdadeiro vilão, vivido por Tramell Tillman, cujo carisma assemelha-se ao de um boneco de cera. Felizmente, a sua relevância não é suficiente para atrapalhar o filme.

Daniel Cretton, que havia dirigido «Shang-Shi», demonstra astúcia nas sequências de ação, guiando o espectador pela movimentação do Homem-Aranha sem perder a lógica espacial, com direito a um uso pontual e acertado de câmera lenta. Em filmes desse tipo, a elaboração de cenas memoráveis é vital. Pelo menos duas entrarão para o hall da fama do herói – uma, pelo esperado retorno de um personagem querido pelos fãs das HQs; outra, pela sofisticação da coreografia. Eu fiquei realmente surpreso com a profundidade das interações entre Parker e MJ. Pela primeira vez, o MCU não o tratou como um grande palhaço ou uma criança engraçada. Os dilemas ali são universais, colocados pelo argumento com maturidade, sem cair em clichés baratos. Em um desses momentos, no qual sabemos que MJ, por razões “mágicas”, não é ela mesma, a luz vermelha do letreiro em neon reflete no seu rosto – diferentemente da maioria dos filmes de heróis recentes, aqui, a encenação é pensada com carinho.
Tom Holland não é um grande ator. Todavia, enquanto Peter Parker, ele tem a oportunidade de nos impressionar com suas (poucas) qualidades. Holland é dono de um charme inocente que casa com a proposta pop do MCU e, por incrível que pareça, ele alcança as notas certas nas diferentes facetas do seu personagem.
«Homem-Aranha: Um Novo Dia» representa um raro acerto de um estúdio que, nos últimos anos, tem naufragado em seu modus operandi.
Título original: Spider-Man: Brand New Day
Realização: Destin Daniel Cretton
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Mark Ruffalo, Jon Bernthal, Florence Pugh, Sadie Sink, Liza Colón-Zayas, Tramell Tillman, Marisa Tomei
Duração: 145 min.
EUA/Canadá/Reino Unido/Alemanha, 2026



