«O Convite» abre-se a uma encenação. Somos convidados, juntamente com os vizinhos de cima de um casal, a entrar nesta casa “construída”, imaculada, “a very very very fine house”, como a música de Crosby, Stills, Nash & Young presente no filme nos diz. Já vinha de trás o desejo de convidar alguém após a renovação do apartamento (“renovar sem mudar”) – o casal não tem amigos – e naquele final de dia Angela (Olivia Wilde) surpreende o marido Joe (Seth Rogen) quando este chega a casa de mais um dia de trabalho.
Angela compra não só flores, queijo e charcutaria, mas também um tapete novo para a sala. A filha de ambos foi dormir a casa de uma amiga. Tudo está preparado para a farsa começar. Joe não foi incluído, e o esforço da mulher enfurece-o. Num exercício tocado a quatro mãos, Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) desfazem gradualmente a fachada que Angela despendeu tanta energia a construir. “Vocês têm dinheiro?”, diz Hawk a olhar em seu redor pela sala. Depois partirá para o tapete, que não acredita ter vindo de uma feira. E Piña, psicoterapeuta que é, elevará as paredes, o tecto e toda aquela mobília até só restar Angela e Joe e o seu descasamento.
É difícil reconhecer e aceitar quando uma longa relação amorosa acaba. A proposta de Olivia Wilde, num argumento co-escrito por Will McCormack, Rashida Jones e Cesc Gay, este último o autor da peça e do filme no qual este se baseia, quer-se irónico-pungente, mas não há envolvência suficiente para isso. Os quatro actores e suas personagenss estão sintonizados uns com os outros. Mas só Joe é que desce realmente às profundezas de si mesmo. Torna-se, por isso mesmo, difícil criar laços com os restantes. A espessura tensional que enriquece o filme vem antes da construção da “casa” do filme. Da textura daquele 35mm rugoso. Da banda sonora, por vezes demasiado evidente, que vai marcando o tom inquisitivo. E com ela, a imprevisibilidade e a falta de conforto da trama sobre o que se esconde naquele lar, à plena vista dos estranhos que só queriam “ver o apartamento e talvez fazer sexo”.
O que temos perante nós é mais um exercício de terapia – mordaz, mas cuidadoso – ao invés da carnificia do encontro. É um cinema de implosão. «O Convite» não segue a tradição dos quartetos de Roman Polanski e Mike Nichols, «O Deus da Carnificina» (2011) e «Quem tem Medo de Virginia Woolf?» (1966), respectivamente. Mas a sua comédia cáustica e seca, recheada de one-liners, relembra qualquer um de Nichols (e, claro, Elaine May). O mesmo poderá ser dito da música da dramaturgia de um só lugar, aquele olhar para dentro deste casal através do lugar que habitam, que sugere a ansiedade pitoresca e o incómodo existencial de Woody Allen.
A comédia sexual Americana recupera, através de Wilde, agilidade. Com a aparição do casal de vizinhos, as típicas convenções amorosas desaparecem e as relações poliamorosas juntam-se a uma experiência que já tinha sido, até ali, sobre decifração. Há várias formas de permanecermos juntos. Não podemos é continuar sozinhos. Quando a porta se fecha ao final da noite e o silêncio se abre sobre eles, Joe e Angela conseguem finalmente discernir o estado real das coisas.
TÍTULO ORIGINAL: The Invite
REALIZAÇÃO: Olivia Wilde
ELENCO: Olivia Wilde, Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton
ORIGEM: Estados Unidos
DURAÇÃO: 107 min.
ANO: 2026



