Laureado com o Kikito de Melhor Filme no último Festival de Gramado pelo demolidor olhar sob os códigos da masculinidade, «Oeste Outra Vez» transformou a obra do seu realizador, o goiano Erico Rassi, num ímã de debates. Pelo meio do sucesso de uma nova edição (a 53ª) do evento cinematográfico da serra gaúcha, no Rio Grande do Sul, a longa-metragem entrou na primeira lista da Academia Brasileira de Cinema para a triagem do potencial representante do seu país ao Óscar 2025. O seu enredo transcorre no sertão de Goiás, onde homens brutos que não conseguem lidar com as suas fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles voltam-se violentamente uns contra os outros, o que leva um comerciante a contratar um assassino a soldo a fim de dar cabo do homem com quem a sua ex-companheira se envolveu afetivamente.
O interesse pelo modo autoral de Rassi para devassar instituições (morais) a partir da geografia do Centro-Oeste hoje motiva buscas pela sua anterior longa-metragem anterior, «Comeback», de 2016. É o canto de cisne de Nelson Xavier (1941-2017), um dos maiores atores da América Latina.
Uma espécie de cerimónia do adeus disfarçada de thriller, centrada na ética dos assassinos por contrato, «Comeback» rendeu a Xavier o troféu Redentor de Melhor Ator no Festival do Rio de 2016, num empate com Julio Andrade (laureado por «Redemoinho» e «Sob Pressão»). Visto em sucessos de bilheteria como «Chico Xavier» (2010), o ator paulista que foi o Lampião da TV Globo trazia no currículo troféus em Gramado e em Brasília (por «A Despedida» e «O Mágico e o Delegado»), além de ter um Urso de Prata, dado a ele e a Ruy Guerra na Berlinale de 1978, por «A Queda». Rassi soube extrair o melhor dele na sua imersão numa narrativa digna de «Este País Não É Para Velhos» (no Brasil «Onde Os Fracos Não Têm Vez») (2007), dos irmãos Coen. Não teve medo de diluir os signos cinéfilos da violência – à semelhança do que sempre fizeram os Coen.

Mesmo nos mais ferrenhos debates sobre a necessidade do “filme de género” no cinema brasileiro, é raro se ouvir falar na importância do thriller de ação como um caminho para mobilizar plateias, apesar de toda a importância que o filão teve para a educação audiovisual das gerações criadas nos anos 1980 e 90. Sob esse (e outros) prisma(s), «Comeback» merece loas: além de ter uma série qualidades em termos narrativos, a produção dirigida por Rassi é um exemplar nacional raro da linhagem da adrenalina. Lembra-nos aquelas fitas com Charles Bronson (1921-2003) tipo “The Stone Killer” (1973).
Narrativa crepuscular afinada com a perceção da finitude, «Comeback» põe Xavier na pele de um gun for a hire em fase de reforma. Ao som de Altemar Dutra na banda sonora e dá para se ouvir Manolo Otero, como indícios de um ranço brega num universo no qual matar dá orgulho. A música dá um cheiro de nostalgia a esse neowestern. Sempre atento à ideia do esmagamento de valores pretéritos, a realização de Rassi namora com as cartilhas de filmes de ação mais artesanais, como as longas de culto de Don Siegel (“Dirty Harry”) e (sobretudo) de Michael Winner, com direito à criação de um personagem maior do que o filme: Amador, o gatilho relâmpago (hoje enferrujado) vivido por Xavier. O seu carisma serve de bússola a um percurso por veredas que um dia foram banhadas a sangue.
Muita gente diz que ele pintou e bordou quando jovem, de arma na mão. Uns dizem que ele é só um poço de bravatas. Há quem veja nele um destemido (ainda) a ser temido. O enredo filmado por Rassi acompanha as estratégias de sobrevivência de Amador na conjuntura das máquinas para caçar níqueis e do seu desejo de assassinar de novo, por respeito.
Inaugurada no sábado com «Nó», de Laís Melo, a competição de longas de ficção de Gramado seguiu nas franjas da competência no domingo com a exibição de «Papagaios», um misto de comédia e thriller de Douglas Soares. Vitaminado pela montagem de Allan Ribeiro, que alterna humor e suspense com destreza, a trama acompanha o dia a dia de Tunico (Gero Camilo), um “papagaio de pirata” [“emplastro”]. O termo se refere a figuras que fazem o possível e o improvável pela fama ao aparecerem em coberturas jornalísticas televisivas sem serem chamados. Tunico é famoso no seu bairro, Curicica, eixo do Rio de Janeiro sem belezas naturais aparentes. Aos 60 e poucos anos, ele está com problemas de saúde, mas ainda segue empenhado em correr atrás de flashes. Vai a enterros para os quais não é convidado, caça tragédias que atraem repórteres e se assanha todo ao saber de uma homenagem ao cantor Leo Jaime – ícone do B-Rock – nas cercanias de Curicica. Esse tributo ao cantor ocorre quando ele acolhe um jovem sem eira nem beira, Beto (Ruan Aguiar), no seu lar, por gratidão a um salvamento. Faz dele uma espécie de Robin para sua Gotham City da Zona Oeste carioca. Só não contava com o caráter torto do rapaz. A direção de arte de Elsa Romero é de uma mestria ímpar.




