A distância geográfica aproximada de Fortaleza, no Ceará, para a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, é estimada em 3881 km, o que equivale a aproximadamente 2 dias e 4h numa viagem de carro entre as cidades. Já a distância audiovisual foi encurtada pelo festival gramadense, há um ano, quando abriu a programação de 2024 com «Motel Destino», do cearense Karim Aïnouz, que vinha com uma indicação à Palma de Ouro de Cannes no currículo. Há anos, o evento tem flertado com títulos do Nordeste em suas sessões de abertura. Foi assim em 2016, com «Aquarius», do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que inaugurou Gramado em 2019, com «Bacurau» (codirigido por Juliano Dornelles) e em 2023, com «Retratos Fantasmas». Este ano, seu esperado «O Agente Secreto» ficou para o Festival de Brasília, com exibição agendada para 12 de setembro. Coube a Gramado apostar para outro estandarte autoral do Recife, em Pernambuco: Gabriel Mascaro. Na sexta, Mascaro esteve lá com «O Último Azul», que lhe deu o Grande Prémio do Júri da Berlinale.
Essa sessão será crucial para a carreira comercial da fita, que estreia no próximo dia 28, em seu país. Gramado foi essencial para que «Motel Destino» permanecesse meses em cartaz.
Todo dia, a toda hora, encontra-se areia nas camas dessa hospedaria para amores fugazes localizada à beira de estrada numa praia do Ceará, distante da agitação da grande cidade. A funcionária Dayana é quem mantém a organização dos quartos. Ela ri quando fica nervosa. Ri num desatino, tensa, quando o perigo se aproxima, mas sabe se zangar com clientes que inventam desculpas, fazem orgias ou arranjam motivos para não pagar. Pensou que esse era o caso do jovem Heraldo quando o rapaz alegou ter sido roubado pela moça com quem passou a noite, antes de adormecer e acordar sem bem algum. O sujeito, contudo, falava a verdade. Não toda. Ele não contou, por exemplo, que está jurado de morte e que acabou de ter o seu irmão assassinado. Ia matar um francês que mora na região daquele motel, a mando da sua chefe, numa organização criminosa, mas atrasou-se para a missão – o que deu ruim… muito ruim. Apesar disso, Dayana se encanta por ele e tenta disfarçar o desejo que sente, a tentar não dar sinais para seu companheiro (e misto de chefe), Elias (papel que garantiu a Fábio Assunção uma consagração há muito merecida no grande ecrã).

É grande a vontade que Dayana tem de se livrar desse homem que só lhe trata bem quando quer fazer sexo. Ela, todavia, sabe quem tem direito a um percentual alto no faturamento do Destino, pois, afinal, trabalhou para isso. O problema é como tirar Elias do jogo e se apropriar do que acredita ser seu.
Até essa questão vir à tona, Dayana arrebatou por completo a plateia do novo filme de Karim Aïnouz, exibido em competição no 77º Festival de Cannes. Esse arrebatamento deu-se graças ao desempenho inquieto e cativante de sua intérprete, Nataly Rocha. O seu modo franco de falar a encaixa num rol de personagens latino-americanos que se expressam sem filtros, sendo direta e cortante. Igualmente arrebatador é o desempenho de Iago Xavier como Heraldo, um sonhador que anseia pela chance de ter sua oficina mecânica em São Paulo, deixando a rotina cearense para trás. Já Elias só pensa em ampliar o seu motel. Vai para Fortaleza comprar brinquededos eróticos e pensa em obras para melhorar o atendimento. Ele só não pensa no bem-estar de Dayana. Nem é capaz de imaginar a trama digna de um filme dos Irmãos Coen (como «Blood Simple» ou «Fargo») que se desenha em seu redor.
Apoiado na caleidoscópica fotografia da francesa Hélène Louvart, Karim deu a Cannes um filme surpreendente, que se inscreve nos códigos do thriller noir (sobretudo o dos anos 1980), numa toda tropical, ao mesmo tempo em que presta um tributo à pornochanchada – embora sem humor. É um estudo delicado de personagem, que tenta compreender os resquícios de Brasil por trás de cada vértice de seu triângulo. Passa pela violência contra as mulheres, o crime organizado, a corrupção e o machismo, desconstruindo cada um desses males no roteiro escrito com Wislan Esmeraldo e Maurício Zacharias. Visualmente, a direção de arte de Marcos Pedroso faz do motel Destino um quarto – e vivíssimo – personagem, que serve de microcosmos para abismos onde o Brasil está enfiado até o pescoço.
Gramado encerra a sua edição número 53 no próximo sábado. No sábado, «Nó», de Laís Melo, abriu a competição das longas em concurso. Glória, a sua personagem principal, vivida com esplendor por Saravy, é operária numa fábrica de alimentos. Tem três filhas, tem amizades fidelíssimas e tem fé, bate de cabeça com as entidades que lhe abrem caminho, no Paraná. Um embate com o ex-marido e uma potencial promoção, pelo meio de um processo seletivo na sua empresa, alteram a sua rotina.

