Acostumado a promover a pré-estreia de potenciais sucessos nas suas sessões de abertura, como fez com «Aquarius» (2016) e «Motel Destino» (2024), o Festival de Gramado fez jus a essa tradição ao trazer «O Último Azul» para inaugurar sua 53. edição. Neste sábado, o realizador Gabriel Mascaro e sua equipa falaram sobre o filme – que será lançado no circuito brasileiro no dia 28 de agosto e a 4 de Serembro em Portugal – na primeira conferência de imprensa do evento, realizado na Serra Gaúcha.
“É bom ver como o filme se conecta com o mundo”, diz Mascaro, que esta noite pode sair premiado do Festival de Lima, onde «O Último Azul» compete na seleção latino-americana.
Responsável por celebrizar longas-metragens de natureza mais popular (como «Mussum, O Filmis») e de verve mais experimental (caso de «Serras da Desordem»), o Festival de Gramado é a mais famosa das mostras competitivas do cinema brasileiro desde a década de 1970, quando foi criado no Rio Grande do Sul. Acontece em Agosto e assume como símbolo o Kikito, o deus-sol do povo gaúcho, na região dos Pampas. Em 2025, o evento, criado em 1973, tem entre seus concorrentes «A Natureza das Coisas Invisíveis», «Sonhar com Leões», «Cinco Tipos de Medo», «Nó», «Querido Mundo» e «Papagaios». O river movie que assegurou o Grande Prémio do Júri da última Berlinale para o Brasil, «O Último Azul», passa fora de concurso. A Amazónia é o cenário da trama, que arrancou lágrimas do público serrano na noite de sexta.

“É um filme sobre pulsão de vida, com referências sobre como envelhecer no mundo”, disse Mascaro, na press conference.
Uma ovação em forma de urro contagiou a Berlinale Palast, debaixo de dois graus do frio característico do mês de fevereiro, no final da exibição de «O Último Azul» na luta pelo Urso de Ouro de 2025. Guadalajara e Buenos Aires exibiram a fita nos seus festivais e celebraram a destreza do realizador de «Divino Amor» (2019) ao guiar a câmara pelas paisagens da Amazónia, driblando os clichés na representação da floresta.
“Vou da utopia para chegar à distopia”, disse Mascaro, em Gramado. “É um ensaio fantástico com a Amazônia em toda sua contradição”.
Mascaro já chegou ao certame alemão com «O Último Azul» cheio de prestígio. Abocanhou o Prémio do Júri dos Horizontes de Veneza, há dez anos, com «Boi Neon», que também levou o troféu de melhor filme no Festival do Rio de 2015. Ele esteve na Berlinale antes com o já citado «Divino Amor», que passou ainda nas telas de Sundance. O que exibiu na Alemanha, no início do ano, e exibido agora, em Gramado, condensa elementos temáticos de ambos as longas, o que assinala uma assinatura autoral.

No enredo da distopia filmada por Mascaro, o governo brasileiro passa a transferir idosos para uma colónia habitacional para “desfrutarem” os seus últimos anos de vida em isolamento. Antes do seu exílio compulsório, Tereza, uma mulher de 77 anos (vivida por Denise em colossal atuação), embarca numa jornada para realizar o seu último desejo: ter dignidade… para com ela ser livre.
“Esse projeto foi um presente. Na Amazônia, tudo o que um ator não pode fazer é atrapalhar o roteiro [argumento]. Para isso, eu escuto o texto”, disse Denise, ao lado do cineasta no Recreio Gramadense, centro nervoso do festival.
Liberdade é a tónica de Gramado. Escolha mais acertada para a abertura, seria impossível. Na largada da maratona cinéfila, Santoro recebeu o Kikito de Cristal pelo conjunto da sua travessia por múltiplas telas, com sucessos na TV («Westworld») e streaming («7 Prisioneiros»). «O Último Azul» arranca dele uma atuação madura e doída. O seu personagem, Cadu, corre a geografia de rios amazónicos com a tristeza de ter perdido uma paixão, Deusinha.
“Vejo no filme a importância de um homem tomar contato com sua fragilidade”, disse Santoro.
Gramado segue até o dia 23. «Nó», que tem sessão nesta noite de sábado, dá sinal de largada para a competição.
Fotos de Gramado: Rodrigo Fonseca + Foto do filme: ©Guillermo Garza Desvia




