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Festival de Gramado – Cacá Diegues no picadeiro da saudade

Lá se vão sete anos, contadinhos, de que «O Grande Circo Místico» passou pelo Festival de Cannes e, na sequência, abriu o Festival de Gramado. Lembrou-se (e falou-se) muito dessa projeção, em 2018, com a exibição do comovente «Para Vigo Me Voy!», primeiro dos quatro concorrentes ao Kikito de Melhor Documentário do evento, em 2025, centrado nos feitos de Carlos Diegues (1940-2025), falecido em fevereiro de 2025. Foram necessários 12 anos para que o mestre alagoano regressasse às veredas da ficção após ser laureado no Festival de Montreal com «O Maior Amor Do Mundo» (2006), o momento mais truffautiano de uma filmografia iniciada em 1962, com «Cinco Vezes Favela», e seguida por «Ganga Zumba», em 1964. Houve muitas lágrimas na exibição gramadense desse tributo dirigido por Karen Harley e Lírio Ferreira.

Para além da comoção, houve um reencontro com o passado, em forma de filmes icónicos. «O Grande Circo Místico» é um deles. Trata-se de um diálogo livre com os poemas de Jorge de Lima (1893-1953) no livro “A Túnica Inconsútil”, de 1938. Desde «Bye Bye, Brasil» (1979), a sua obra-prima, Cacá não vinha tão visceral, lúdico e sem medo de ser erótico, num momento em que voltamos à Idade Média no que envolve a discussão do desejo e da carnalidade. Existe em cena um toque de fantasia traduzido em efeitos especiais, em personagens inusitados e na fotografia quase expressionista de Gustavo Hadba, cuja luz acentua o assombro sob um picadeiro de excessos. A parceria com o argumentista George Moura (de joias televisivas como «Onde Nascem Os Fortes»). Ele é dono de uma particularíssima estética antropológica interessada na selvageria inata aos processos civilizatórios. Isso deu ao cineasta a possibilidade de estudar as transformações afetivas do Brasil ao longo dos cem anos que o seu filme condensa. A trama – transformada em ballet por Naum Alves de Souza, em 1983; e em peça musical, por João Fonseca, em 2014 – mapeia um século na vida de uma trupe circense amaldiçoada por paixões tempestuosas, pela pressa da Morte em abreviar vidas plenas e pelo machismo. O francês Vincent Cassel empresta o seu charme ao filme na pele de um mágico Don Juan que sintetiza na sua empáfia todas as chagas humanas daquela lona de múltiplos misticismos. Cabem ainda nessa lona todos os traços autorais de Cacá (a etnografia da sobrevivência, a magia da fé, as mulheres empoderadas). Num momento de apogeu como cronista, eleito para a Academia Brasileira de Letras, o diretor arrancou atuações viscerais do seu elenco, sobretudo de Luiza Mariani – como uma alcoólica refém da depressão – e de Mariana Ximenes, na pele de uma rancorosa trapezista tatuada. Elas são estrofes iluminadas nessa poesia em forma de filme.

O canto de cisne de Cacá, «Deus Ainda É Brasileiro», rodado em Maceió em 2022, permanece inédito, mas tem trechos de suas rodagens evocados por Karen e Lírio.
O Festival de Gramado termina nesta sexta-feira.  

Foto © Rafael D’Alo

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