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Festival de Gramado – ‘Filhos do Mangue’: resquícios autorais de um acertado Kikito

É cedo para saber que longa-metragem vai ganhar o troféu Kikito de melhor realização do 53º Festival de Gramado, apesar do barulho que Miguel Falabella fez na cidade com a fábula em P&B «Querido Mundo», rodada numa parceria com o sino-carioca de Taipé Hsu Chien Hsin. Há mais concorrentes a desfilar pelo grande ecrã da cidade até quinta-feira, quando a seleção de títulos de ficção se encerra, sobrando apenas os competidores documentais. Apesar disso, a cineasta laureada com prémio nessa categoria em 2024 hoje segue a correr mundos com um drama que encantou plateias gramadenses: Eliane Caffé, premiada por «Filhos do Mangue». Há títulos da competição passada que ainda não estrearam comercialmente, como o belo «Barba Ensopada De Sangue», de Aly Murtiba.

Eliane Caffé

Eliane Caffé conseguiu o circuito de exibição na sua pátria e, lá, ampliou o seu rol de fãs.

Samurai ribeirinho, Pedro Chão, o protagonista de «Filhos do Mangue», chafurda num lamaçal existencial, com o fio cortante da acusação no seu pescoço, a fim de buscar um dos bens mais preciosos da condição humana: a recordação. A fama de mau que o precede parece não fazer justiça ao homem que ele se tornou depois de aparecer ferido e sem memória num povoado que tem muitas razões para odiá-lo. A travessia que esse sujeito engata, a fim de reconhecer-se e exorcizar culpas das quais não se lembra, assegura ao cinema de língua portuguesa um espetáculo poético com a marca de Eliane Caffé. Desbravar Brasis é a sua onda. Basta ver algumas joias da sua carreira: «Kenoma» (laureado em Biarritz, em França, em 1998) e «Narradores de Javé» (indicado ao troféu Tigre do Festival de Roterdão, na Holanda, em 2003). É da sua natureza ainda arrancar atuações viscerais das suas estrelas, o que Felipe Camargo comprova, e bem, nessa sua nova longa-metragem, que acaba de estrear no Rio de Janeiro.


Gramado coroou-a e deu um Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante para Genilda Maria. Na preparação das filmagens, no Rio Grande do Norte, na região de Barra do Cunhaú, Eliane Caffé foi buscar no manguezal uma metáfora de renascimento. O guião é do eterno colaborador da cineasta, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, autor de «Lima Barreto ao Terceiro Dia». Abreu proseia com a literatura de Sérgio Prado, no romance “O Capitão”, para extrair um lirismo peculiar ao universo de Caffé, já decidida a abrir importantes participações para os moradores do Cunhaú e para a população indígena Potiguara Katu (RN). Na produção, estão Beto Rodrigues e Fernando Muniz, que hoje opera em Portugal, apostando em projetos autorais, e tem no currículo «Cinema Novo», de Eryk Rocha, e «Veneza», de Miguel Falabella. Esse time produziu um poema de redenção.

Gramado .57 segue até sábado. Esta noite, a cidade confere o curta «Samba Infinito», de Leonardo Martinelli, que alumbrou a Semana da Crítica de Cannes, em maio. É um poema em pílula sobre o Carnaval, que tem Camila Pitanga em cena. Alexandre Amador é o protagonista dessa coprodução franco-brasileira, rodada com apoio da RioFilme, CNC e France Télévisions, que marca a estreia do jovem ator Miguel Leonardo. A trama desenrola-se durante a folia de Momo no Rio. Em paralelo à chuva de confetes e serpentinas, um varredor de ruas enfrenta o luto pela perda da irmã enquanto cumpre as suas obrigações de trabalho. Em meio à alegria dos blocos de rua, ele encontra uma criança perdida e decide ajudá-la. O encontro deflagra fricções entre duas entidades demasiadamente humanas: a lembrança e a imaginação.

Foto: © Pé na Estrada Filmes

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