Muito se disse e continua a ser dito a propósito de uma das figuras mais emblemáticas da música americana, nascida em Tupelo a 8 de Janeiro de 1935 e falecida em Memphis a 16 de Agosto de 1977. Falamos de um rapaz chamado Elvis (Aaron) Presley.

Entretanto, como ele próprio refere em gravações recentemente recuperadas (entre outros arquivos, registos áudio que se encontravam no mítico espaço da mansão Graceland) chegou o momento de contar na primeira pessoa do singular (ou quase) a sua versão do que foi a sua vida e carreira, relato em que a música se confunde com os bons e maus momentos do seu percurso no mundo do showbusiness.

Assim sendo, para lhe dar a palavra e lhe amplificar a respectiva voz, foi produzido um filme de base documental, fruto do empenho de uma vasta equipa mas sobretudo de um cineasta que já antes o consagrara num projecto de ficção, «Elvis», 2022. Falamos de Baz Luhrmann, o mesmo realizador que agora regressa com «EPiC: Elvis Presley in Concert», 2025. Existe uma óbvia complementaridade entre ambos os projectos e, na verdade, o mais recente acontece por causa do anterior.

Tudo começou na altura da pesquisa fílmica e iconográfica para a longa-metragem «Elvis», a preparação da rodagem durante a qual se manifestou e intensificou o interesse por materiais que certos rumores davam como perdidos, nomeadamente os negativos de 35mm não utilizados em dois filmes-concerto, «Elvis: That’s The Way It Is», 1970, de Denis Sanders, e «Elvis On Tour», 1972, de Robert Abel e Pierre Adidge. Inicialmente, a ideia seria a de aproveitar excertos ou sequências inéditas desses “left-overs” da sala de montagem de modo a integrá-los no citado «Elvis». E, porque quem procura sempre alcança, acabaram por ser encontradas sessenta e nove caixas com cinquenta e nove horas de filme que permaneciam literalmente na sombra e nos arquivos da Warner Brothers.

Mas, como quase sempre sucede nestas ocasiões, uma descoberta abre portas a outras, e foi assim que a partir do espólio conservado em Graceland foram acrescentados mais uns metros generosos, não apenas de fita magnética mas ainda de um conjunto de filmes Super 8, alegadamente nunca antes vistos, enfim, pelo menos fora do círculo íntimo do músico, cantor e actor.

De seguida procedeu-se ao restauro e sincronização do material áudio e visual seleccionado e, neste contexto, um dos mais surpreendentes e preciosos achados foram as gravações do próprio Elvis Presley com apontamentos relativos aos concertos de Las Vegas em 1970, ao Tour de 1972 e ao “gold jacket” performance de 1957, designação com origem no smoking dourado usado nas digressões pelo Hawaii e não só.

Reunidos os materiais meticulosamente articulados no campo da dialéctica som e imagem, o resultado final não podia ser mais mobilizador da nossa atenção. De facto, desde o início que entramos de cabeça num universo cantado e encantado por alguém que, diga-se o que se disser, era um puro-sangue no palco. “The King”, sem dúvida. Todavia, foi mil vezes criticado no início da sua carreira por não se comportar como era suposto um branco comportar-se naqueles anos de brasa em que os costumes começavam a mudar nos EUA e na esfera de influência do mundo ocidental, pós-Segunda Guerra Mundial. De igual modo, houve quem descobrisse nas suas canções ecos dos ritmos negros por muitos conotados com o lado B da sociedade norte-americana, aliás, onde Elvis Presley nasceu e viveu uma parte da sua juventude, um país classista, racista e segregacionista, particularmente no Sul dos Estados Unidos. Dizemos nós, razão não faltava aos seus críticos. Mas ao contrário dessas vozes sectárias e reaccionárias, para muitos (entre os quais me incluo) esse não era um defeito mas sim uma virtude, era a grande mais-valia que o iria catapultar para a ribalta. Da boca de Elvis Presley ouviremos claramente que a sua música congregava diversas influências: para além da Country, outras com raízes bem negras, como o Gospel e o Rhythm & Blues

De um modo geral, aquilo que «EPiC: Elvis Presley em Concerto» nos permite desfrutar (e, já agora, sempre que possível num grande ecrã como o do IMAX), assim como o que mais me agradou ao longo do visionamento, foi a possibilidade de observar a interacção, o poder e a segurança do cantor junto dos seus colaboradores mais próximos.

No actual documentário iremos vê-lo maioritariamente numa fase da carreira em que a sua veterana persona sofria uma espécie de revival, após uma incursão desastrada pela indústria cinematográfica, que o explorou sem dó nem piedade. Sequência após sequência, constata-se como ele se reafirmou e reinventou no quadro mais vasto de uma série de espectáculos com as dimensões por ele desejadas e num ambiente consubstanciado pelas expectativas de um público que o não esquecera e não hesitava em continuar a aplaudi-lo.

Os concertos de Las Vegas (curiosamente dominados por uma plateia de brancos, seguramente com margem de manobra financeira e nostalgia pelos bons velhos êxitos da música popular anglo-saxónica) funcionaram como uma espécie de regresso, num clima de maturidade empresarial, a uma idade de ouro sistematicamente mitificada que correspondia aos da sua afirmação inicial. Para os devidos efeitos, esses concertos propuseram a renovação da sua imagem de marca em função da continuidade natural de um passado que, do ponto de vista musical, permanecia relativamente intacto no presente da rodagem das imagens e sons que hoje constituem património inestimável e a principal matéria-prima da abordagem documental de Baz Luhrmann.

Durante o visionamento, muitas das vezes ao olhar para a ampla superfície do ecrã IMAX, procurei orientar o meu olhar para a singularidade da actuação de Elvis Presley, reforçando a atenção em cada um dos seus gestos, nas suas coreografias, no posicionamento do seu corpo e nos pequenos e subtis sinais que dava aos restantes músicos e ao coro, sobretudo o feminino, constituído maioritariamente por vozes negras. No fundo, era o maestro cuja diversidade de movimentos em cena interferia, no bom sentido da palavra, com o ritmo, o beat, a força e o pulsar inerentes aos arranjos das canções. Há no filme, no quadro das actuações de Elvis Presley e dos seus companheiros, momentos sublimes que a impecável montagem sonora e visual potencia rumo a uma exuberância absoluta dos sentidos.

Percebemos que Elvis Presley precisava do público, não só para sentir o seu apelo (onde se incluía a repetida histeria das fãs), mas também para reconhecer a(s) sua(s) fisionomia(s). Na sequência do breve intervalo de um concerto Elvis Presley pede para aumentarem a luminosidade da sala porque queria ver quem se sentava na plateia, ou seja, não queria actuar “só” para as primeiras filas. Numa apreciação meramente subjectiva, penso que este pedido foi uma outra forma de ele dizer que não queria estar sozinho ou sentir-se isolado do real, acantonado naquilo que se pode designar como a ficção organizada do palco. Para ele, o palco e a vida eram uma e a mesma coisa: “All the world’s a stage, and all the men and women merely players”, como diria o poeta e dramaturgo William Shakespeare que, aliás, ouviremos Elvis Presley citar.

Para as novas gerações que possam não o conhecer da mesma maneira que aqueles que lhe foram contemporâneos, e até para estes últimos, «EPiC: Elvis Presley em Concerto» pode ser a prova irrefutável da sua perene importância no campo do Rock & Roll. Documentário multifacetado, mobilizador do corpo e da alma, para alguns eventualmente polémico naquilo que deixa de fora, seja como for, o que fica na memória passa muito pela sensação de realizarmos uma viagem lancinante pela vertigem da verdade e pela sinceridade com que Elvis Presley se confessa e nos convoca para a sua intimidade enquanto performer, quer no palco quer nos bastidores.

Neste «EPiC: Elvis Presley in Concert» está lá o que precisava estar, e a esta exposição e a esta economia “narrativa” podemos e devemos atribuir nota máxima. Por isso a sua “versão” da vida e carreira, proporcionada pela equação Baz Luhrmann/Elvis Presley, vê-se num fôlego, e quando chega ao fim só gostávamos que durasse mais, mais e mais…!  Sim, “Keep Rollin’ On…!”    

Título original: EPiC: Elvis Presley in Concert Realização: Baz Luhrmann Documentário Duração: 90 min. Australia/EUA, 2026

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