Jazz e o grito da África negra, branca e vermelha…de sangue!

Em «Soundtrack To a Coup d’Etat», 2024, destacam-se os nomes do realizador Johan Grimonprez e do montador Rik Chaubet. Este documentário de criação demonstra como os grandes assuntos da História podem ser abordados de forma incisiva sem necessidade de assumir o habitual modelo, mais ou menos linear, imposto pela formatação do audiovisual, sobretudo o destinado ao pequeno ecrã.

Estamos aqui perante um verdadeiro projecto inovador e cinematográfico que pertence de corpo inteiro ao ecrã largo compatível com uma montagem, mais arriscada do que ousada, no campo da dialéctica som/imagem. Para já não falar no modo como essa dialéctica consubstancia a potente articulação dos depoimentos de dezenas de protagonistas que nos anos cinquenta e no início dos anos sessenta participaram numa das maiores revoluções da História do Século XX, o princípio do fim dos regimes coloniais. Revolução que sofreu uma contraofensiva por parte daqueles que de uma forma ou de outra pretendiam manter as suas posições privilegiadas no saque das riquezas do continente africano. Muito claramente, aponta-se nesta obra uma das razões da cobiça, ou seja, as minas de urânio do Congo cuja exploração fora indispensável no fabrico das bombas atómicas que os americanos lançaram em 1945 sobre Hiroshima e Nagasaki. Tudo isto e a manutenção de uma inicial e curta supremacia nuclear por parte dos EUA antes da União Soviética adquirir igual poder e mudar para sempre o clima geral da chamada Guerra Fria.

«Soundtrack To a Coup d’Etat» concentra a atenção nos acontecimentos ocorridos no então Congo Belga, com especial incidência na preparação do golpe de estado de 14 de Setembro de 1960 que afastou do poder, com numerosas cumplicidades ocidentais, o primeiro-ministro e grande patriota africano Patrice Lumumba (1925-1961) após a frágil independência do Congo e das secessões ocorridas no país, nomeadamente a separação da região mais rica e cobiçada, o Catanga, dominada por Moise Tshombe. Na verdade, o golpe foi levado ao seu ponto mais extremo com o assassinato de Lumumba, facto que consolidou o poder dos golpistas, dos seus cúmplices e aliados e ainda o do então coronel Joseph-Désiré Mobutu. 

Do ponto de vista musical, o documentário adopta o jazz como matéria primordial, mas inclui igualmente outros géneros, dando especial atenção aos ritmos afro-cubanos, sem esquecer os do cancioneiro africano influenciados ou não pelas formas musicais nascidas no continente americano. Mas o jazz amplifica as palavras de ordem dominantes. Diríamos que desde cedo fica claro que o baterista e activista Max Roach e sua mulher, a cantora Abbey Lincoln, representam o grito de guerra militante em defesa de uma liberdade que na sua obra discográfica não se limitava ao patamar de luta pelos direitos civis nos EUA. Muito significativa a este respeito será a sequência final, aquela em que os espectadores vão confrontar e sistematizar a cascata de informação que absorveram ao longo de duas horas e vinte minutos com olhos e ouvidos bem abertos sobre os processos sociais e políticos que resultaram na independência de muitos países africanos, e não só.

Perante a constatação dos seus objectivos, das suas contradições, e conscientes das consequências e das injustiças que ficaram gravadas no devir histórico, sentimos vontade de cantar a plenos pulmões, como Abbey Lincoln: We Insist! Freedom, Now! De facto, quem pode ficar indiferente a essa suite revolucionária? Sim, porque a luta está longe de estar concluída. Prova disso mesmo, a urgência em dar a conhecer esta obra. Na prática, um exercício fílmico indispensável para melhor situarmos factos e acontecimentos que muitas vezes nos escapam, mesmo aos mais atentos, e que no entanto explicam bem o que aconteceu e ainda sobressai hoje não apenas do interior das fronteiras africanas mas também nas do resto do mundo onde o conceito de liberdade, fraternidade e igualdade não passa de uma miragem.

De novo no campo musical, faz-se sentir a presença de nomes maiores da música jazz e a referência aos concertos que o Departamento de Estado americano organizou na época retratada no filme para disseminar uma suposta política de diplomacia cultural, leia-se, propaganda dos valores made in USA, junto dos países onde estes estavam a ser contestados, o Leste Europeu, assim como largas regiões da América do Sul e ainda da Ásia. Em suma, deslocações que na realidade encobriram outros desígnios (o que provocou posições muito críticas por parte de alguns dos músicos convidados), nomeadamente o desviar de atenções para encobrir as manobras que alegadamente a CIA desenvolvia com vista ao derrube de governos que seriam hostis aos interesses das grandes multinacionais e do capitalismo internacional. Participaram nestes concertos, intitulados Jazz Ambassador Tours, entre muitos outros, Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Quincy Jones, Dave Brubeck e Duke Ellington. Um dos mais significativos foi o de Louis Armstrong, organizado após a independência do Congo e que, segundo muitos historiadores, usou a popularidade do músico e cantor como um Cavalo de Tróia para facilitar a circulação de agentes da conspiração golpista em domínios que não seriam fáceis de penetrar sem uma certa acalmia consensual que a carismática presença de Satchmo provocara entre aqueles que estavam a viver os dias de brasa de uma devastadora guerra civil.

Do ponto de vista da História, «Soundtrack To a Coup d’Etat» mostra sem crueza mas igualmente sem filtros redutores alguns dos principais acontecimentos ocorridos na época e relacionados com a luta anti-colonialista, destacando as intervenções e os debates que se desenrolaram durante a Assembleia Geral das Nações Unidas que ficou famosa pela exuberante performance de Nikita Khrushchev, pelos seus inflamados discursos e pelas suas reacções desde a bancada, mas onde muitos outros políticos e chefes de estado brilharam ao mesmo nível. Para além do palco da ONU, o filme acrescenta depoimentos vitais de figuras maiores como o activista Malcolm X e o escritor congolês In Koli Jean Bofane, e de uma grande mulher a quem o realizador quis dar o lugar que ela realmente merece na luta pela emancipação africana, Andrée Blouin, leader independentista, conselheira do presidente do Gana (fundador do pan-africanismo, o visionário Kwame Nkrumah) e que foi ainda chefe do protocolo do governo de Patrice Lumumba.

Muito mais haveria a referir deste filme complexo e fascinante, mas como anteriormente disse ele merece ser visto e apreciado nas suas qualidades sonoras e visuais. E vê-se num fôlego. Desde o início somos levados pelo som dominante das palavras de quem fala e de quem se fala, mescladas com os sons prevalecentes do swing, do be-bop, do hard-bop, do cool jazz e do free-jazz. Neste último caso, quando o grito de afirmação pessoal e colectiva explode de revolta e se solta como uma autêntica “pantera negra” em pleno anfiteatro das Nações Unidas em protesto pela morte de Patrice Lumumba [foto]. Música que enquadra os acontecimentos e seus protagonistas, mil e um nomes que vale a pena acompanhar numa visão desencantada, musicalmente aguerrida, de um momento ímpar, singular e conturbado de um sonho, o da afirmação do Sul global. Mas, para além dos mecanismos que levaram ao assassinato de Patrice Lumumba, sabendo o que sabemos hoje e não obstante os altos e baixos da História com H maiúsculo, há algo que na visão de «Soundtrack To a Coup d’Etat» se impõe a cada sequência e nos fica gravado na memória: o inegável sentimento de alegria e de esperança, polvilhado de algumas ilusões, que se vivia naquela altura face ao perspectivar de um mundo novo. Numa frase, a noção muito visível de que os ventos sopravam a favor dos povos africanos e dos países não-alinhados. Forças que diferentes lutas desencadeavam no sentido de quebrar as grilhetas que durante séculos mantiveram muitos homens e mulheres escravos, de facto, ou escravizados de corpo e alma sob o jugo dos poderes coloniais e imperialistas.  

Em suma, como dizia Sophia de Mello Breyner no seu poema Cantata de Paz: “Vemos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar”. No Festival de Sundance de 2024 recebeu o Prémio Especial do Júri para a Inovação Cinemática.

Título original: Soundtrack To a Coup d’Etat Realização: Johan Grimonprez Documentário Duração: 150 min. Bélgica/ França/ Países Baixos, 2024

Fotos:

© 2024_Soundtrack to a Coup d’Etat_Johan Grimonprez_Nikita Khrushchev Dwight D. Eisenhower © AP

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