“A relação entre paciente e médico, que costumava ser sagrada, agora tem muitos obstáculos pelo meio. Em «The Pitt» tentamos ser fiéis à medicina e ao seu rigor de maneira a contribuir para retomar esse diálogo.” Noah Wyle

A experiência diz-nos que a segunda temporada de uma série, tal e qual a sequela de um filme, tende a responder a horizontes de grandeza: se a primeira correu (muito) bem, há que subir a parada no capítulo seguinte e não desiludir os espectadores. Mas será que tem de ser exatamente assim? As mentes por trás de «The Pitt», série surpresa da última edição dos Emmys (Melhor Série Dramática), descartam esse lugar-comum logo à partida. “Não precisas de fazer maior, melhor, mais rápido, mais forte. Apenas fazer de novo, lembrar como foi da primeira vez, manter-te fiel às personagens, ser honesto e continuar a partir daí”, garantiu Noah Wyle, rosto principal do drama médico, na conferência de imprensa em que a METROPOLIS participou. O conselho em si chegou-lhe pelo produtor executivo John Wells, sentado ao seu lado… Nada como gente com os pés bem assentes na terra.

Eis então a linha de «The Pitt». A série que traz agora novos episódios à plataforma HBO Max – são mais 15, correspondentes ao horário de um turno, na mesma lógica da primeira temporada – tem a coragem de não seguir o padrão do aumento de escala, permanecendo no modus operandi que lhe deu reconhecimento. Aquele que pertence às coisas humanas: o stress nas urgências hospitalares, as dores e psicologia geridas em “tempo real”, a boa prática clínica e toda a poesia negra contida nos casos de um só dia.

O que resultou na primeira temporada de «The Pitt» foi essa mudança de paradigma em relação à maioria dos dramas médicos dos últimos anos, que ora privilegiavam mistérios e génios da medicina («Dr. House», «The Good Doctor») ora focavam demasiado nas relações pessoais/profissionais em detrimento das histórias dos pacientes («Anatomia de Grey»). Concebida por R. Scott Gemmill, produtor de outra renomada série hospitalar, «Serviço de Urgência» (1994-2009), que acabou por ser a escola do próprio Noah Wyle, «The Pitt» está aí para colocar a lente sobre as pessoas, os seus quadros clínicos e a vertigem de uma América desinformada.

“Algo que nos deixava muito satisfeitos na altura de «Serviço de Urgência» era o facto de se acreditar no que era dito em televisão: se enunciássemos um dado médico, o espectador podia levar essa informação e confirmá-la com um profissional de saúde”, sublinha Wyle. “Os dramas médicos têm jogado com isso ao longo dos anos, mas a cultura mudou muito. A relação entre paciente e médico, que costumava ser sagrada, agora tem muitos obstáculos pelo meio. A desinformação, o cinismo, a desconfiança, tudo isto torna difícil ter uma conversa franca. [Em «The Pitt»] tentamos ser fiéis à medicina e ao seu rigor de maneira a contribuir para retomar esse diálogo”, conclui o ator, esperançoso.

Com base na atualidade americana, quisemos também saber como é que esta produção integra as novas políticas de saúde no seu retrato social. Pergunta a que respondeu o criador, R. Scott Gemmill: “Uma das coisas que fazemos no início da temporada, várias vezes ao dia, é sentar e conversar com especialistas da área da saúde sobre diversos aspetos, seja anestesiologia, cardiologia ou cuidados de saúde mental. E perguntamos-lhes: o que é que está a acontecer no seu mundo? Que histórias não estão a ser contadas? Que histórias acham que deviam ser contadas? É assim que criamos, ou pelo menos é assim que obtemos as ideias principais para algumas das histórias médicas que vamos abordar. Tentamos manter-nos o mais atualizados possível sobre o que está a ocorrer na medicina”.

Já o produtor executivo John Wells complementa e arrisca ser mais incisivo no tema, ainda em resposta à METROPOLIS: “É importante não nos basearmos apenas nas manchetes. Em vez disso, ouvimos as preocupações das pessoas que estão na linha da frente… Em relação ao sistema de saúde americano, o certo é que está em crise, e uma crise que não vê melhoras perante oito a dez milhões de pessoas que estão a deixar de ter planos de saúde. Isso significa que não vão receber primeiros socorros: estão impedidas de chegar às urgências com problemas muito graves. Nesse sentido, infelizmente, há muitas histórias para contar”.

Se «The Pitt» já era hiper centrada na geografia interna do serviço de urgência de um hospital de Pittsburgh, desta feita o plano parece ainda mais intensivo, com o uso muito pontual da cidade. “Criamos propositadamente uma experiência claustrofóbica e imersiva, que nos mantém o máximo possível nas urgências”, reforça Noah Wyle. “Às vezes vamos até ao heliporto, quando chega um paciente, noutras seguimos Robby [o médico interpretado por Wyle] no caminho para o trabalho e depois até casa… algo bastante específico. O que isso nos permite é quebrar a monotonia da produção em Los Angeles, fazer uma saída de campo e criar a oportunidade para que todos estabeleçam laços como elenco in location – é importante para a energia da equipa. E é uma ótima forma de representar a cidade de Pittsburgh, que nos acolheu de braços abertos, e o Allegheny General Hospital, que nos deu licença para filmar lá”.

Pessoas nos corredores, bloco de cirurgia ou sala de espera, médicos em aprendizagem contínua, num ritmo pouco recomendável, gestos de cuidado profissional e outros de simples entendimento humano: assim se faz «The Pitt», uma série prática, crua, comovente, que leva à letra o juramento de Hipócrates.

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