“De Hilde, com amor” (“In Liebe, Eure Hilde”), realizado por Andreas Dresen, retrata a vida de Hilde Coppi (interpretada por Liv Lisa Fries), uma jovem envolvida involuntariamente na rede de resistência comunista conhecida como Rote Kapelle (Orquestra Vermelha), durante o Verão de 1942, em Berlim. A narrativa equilibra com mestria a intimidade de um romance e a frieza cirúrgica do regime nacional-socialista: Hilde apaixona-se por Hans Coppi (Johannes Hegemann), partilha com ele momentos de ternura num cenário aparentemente idílico e, aos poucos, envolve-se nas sombras perigosas da contra-espionagem. O filme inicia-se com uma cena de prisão que mescla cuidado e violência perversa com um interrogatório ao estilo good cop, bad cop. A partir daí, o drama alterna entre os fragmentos de um Verão apaixonado e os salões frios da prisão, onde Hilde dá à luz e enfrenta o destino inevitável de traidora do III Reich. A montagem retroactiva transforma-se num quebra-cabeças emocional: cada evento outrora leve adquire gravidade trágica quando colocado no contexto da repressão. A realização de Dresen evita construções formulaicas: não há dramatismo excessivo, bandeiras agitadas ou discursos inflamados. O horror esconde-se antes na normalidade dos gestos quotidianos, na cordialidade dos algozes, no silêncio burocrático. Não deixa de contrapor, porém, os episódicos actos de humanidade e decência humana dos que serviam o Regime. Não há monstros, nem heróis; outrossim, seres humanos com as suas grandezas e fraquezas. A fotografia de Judith Kaufmann, luminosa e actual, reforça esta aproximação: sem sépia, sem sombras excessivas, capta o passado como se fosse presente — e, assim, fá-lo mais dolorosamente premente e angustiante. Liv Lisa Fries –  que já nos tinha encantado naquela que será, talvez, a melhor série alemã de sempre: “Berlin Babylon” (Tom Tykwer, Achim von Borries e Hendrik Handloegten, Sky One)  brilha num registo de contenção, passando com subtileza por medo, ternura e determinação. O corte final, seco, asséptico e cruel, após um olhar breve de Hilde para o céu, é de uma dignidade devastadora.

É notável como o filme opta por não transformar Hilde e Hans em heróis clássicos. São apresentados como pessoas comuns, com dúvidas, hesitações e desejos. Gente que ama, que resiste, que erra. A história evita o martírio épico para se concentrar na vertente íntima da resistência: vemos um casal que se apaixona, que discute, que se protege. O activismo político não surge como desígnio idealista, mas como consequência da partilha de afectos e da inquietação face ao mundo. É na ambiguidade que reside o génio da personagem. A Orquestra Vermelha, tantas vezes envolta numa aura quase mitológica, surge aqui despojada de solenidade: é, somente, um grupo de jovens idealistas; amigos que organizam pequenos gestos de resistência por entre festas, passeios e cumplicidades silenciosas. Esta escolha narrativa reforça a ideia de que a coragem não é monopólio dos mártires, mas pode nascer de uma ética do cuidado, da ternura, da não-indiferença.

Neste ponto, “De Hilde, com amor” oferece também um contraste desconfortável com a natureza do activismo contemporâneo, sobretudo aquele que habita as redes sociais e os circuitos culturais ocidentais. Enquanto Hilde se envolve numa luta que ameaça directamente a sua vida — e a vida do filho que carrega no ventre —, hoje o activismo é muitas vezes encenado como espectáculo de indignação instantânea, praticado sob o conforto da visibilidade e protegido pelas garantias da ordem democrática. A coragem deu lugar à performance, o risco à histeria, e a acção política transformou-se, não raro, num exercício de validação identitária. Quem hoje se apresenta como «militante» fá-lo quase sempre sem qualquer sacrifício real, sem consequências, sem perigo — e muitas vezes com a expectativa de retorno simbólico ou prestígio social. O filme, sem jamais cair na moralização, relembra-nos que resistir é, antes de tudo, escolher perder. Perder conforto, perder segurança, perder, em casos como o de Hilde, até a própria vida. Nesse sentido, o seu silêncio vale mais do que mil declarações modernas; e o seu olhar final, calmo e vertical, desmente toda a retórica estridente de um tempo que confunde visibilidade com virtude.

Esteticamente, o filme é sóbrio, contido, circunspecto. A ausência quase total de música, os planos longos e estáticos, a fotografia límpida, tudo contribui para acentuar a sensação de realidade crua e inevitável. A música só surge pontualmente, em festas ou cerimónias, como se o som pertencesse apenas ao mundo da aparência — enquanto o silêncio é o território da verdade. A recepção crítica foi sólida: embora não tenha vencido o Urso de Ouro na Berlinale de 2024, o filme foi amplamente elogiado e viria a ser distinguido nos Deutscher Filmpreis de 2025, com Liv Lisa Fries a conquistar – muito merecidamnete – o prémio de Melhor Actriz e o filme a receber o troféu de bronze. Se há alguma limitação, talvez resida no facto de a vertente política da resistência ficar algo diluída: o comunismo dos Coppi é mais contexto do que conteúdo, mais enunciado do que explorado. Contudo, esta escolha é coerente com a lógica da obra: não se trata de contar uma história de militância comunista, mas sim uma história de afecto — e de como o afecto pode ser, em tempos de terror, uma forma radical de resistência. Hilde e Hans foram um casal real, como tantos outros cuja principal tragédia foi terem nascido no tempo e lugar errado, sem saberem o que eram ou o que poderiam ser, mas tentando manter a sua humanidade e verticalidade. Numa das mais pungentes cenas do filme, Hilde mostra o filho a Hans que já condenado à morte. Ela diz-lhe: «O bebé só vê contornos» ao que ele responde: «É o que eu sou agora. Só contornos.» “De Hilde, com amor” é, pois, uma obra urgente, contida, e profundamente comovente. Mostra-nos que a coragem, antes de ser bandeira ou discurso, é um gesto íntimo e irrepetível: mais contorno do que figura.

Título original: In Liebe, Eure Hilde Realização: Andreas Dresen Elenco: Liv Lisa Fries, Johannes Hegemann, Lisa Wagner Duração: 125 min. Alemanha, 2024

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