«A Dupla Face da Lei» reúne novamente dois monstros da representação do cinema moderno, Robert De Niro e Al Pacino, o talento de ambos atenua as debilidades do projecto. A realização está a cargo de Jon Avnet, que em tempos realizou obras dignas de menção, actualmente arrasta-se em flops e registos dignos de edição home cinema. Neste filme, é um realizador tarefeiro, falta-lhe o tacto artístico necessário para explorar em pleno o melhor de De Niro e Pacino. Respeita o estatuto de ambos, não há recurso a números de circo, mas não resta um único plano para a posteridade. Interessa recordar que a produtora independente por detrás deste projecto durante anos a fio, filmou a metro ninjas e polícias corruptos. Nos últimos anos, deu o salto para as salas e não fez muito melhor. A conjugação dos dois actores globais só foi possível com o esforço de financiadores, normalmente opinativos e sem tato cinematográfico, e deixam sempre marcas manhosas no filme.

O enredo aborda as frustrações de ser polícia em Nova Iorque, onde a ralé criminosa é posta em liberdade pelos tribunais. Um par de polícias veteranos atinge o limite com o status quo. Coexiste a ambiguidade moral, embora não permanente, salta de forma descarada. Os personagens cruzaram a linha da lei, afirmando em permanência que não há nada como escumalha que merecia levar um balázio. A obra entra num jogo de pistas falsas, uma tentativa falhada de sofisticação, dispersando desnecessariamente o enredo. O elenco é vasto, tem a difícil tarefa de estar ao nível da dupla de peso. Brian Dennehy representa de raspão, Carla Gugino é boa a portar-se mal, interpreta uma detective que trata por tu o sexo com umas bofetadas à mistura, confere dualidade de carácter à sua personagem. John Leguizamo está cada vez mais distante do seu melhor com Donnie-o-Wahlberg-menos-talentoso, a formar caricaturas estupidificadas da Lei. Quando um projecto tem à disposição De Niro e Pacino não se espera que eles sejam apenas gémeos siameses, lado a lado na maioria dos planos, é exigido química interpretativa, emoção e diálogos de qualidade, colocá-los a citar Dirty Harry era escusado. O argumentista, Russell Gewirtz, tremeu e complicou a narrativa, nem parece ter escrito «Inside Man» de Spike Lee, não houve capacidade de redigir material digno destes actores, as melhores cenas são aquelas que parecem plausíveis e nutridas de diálogos naturais. O fato de não ser um filme muito mau ou uma razoável síntese de papéis policiais das suas carreiras, não deve ser um cheque em branco para valorizar um objecto, com outros intervenientes seria um filme de 3ª categoria.

Um objecto banal tornado um registo digno de menção devido a dois mestres da representação, aqui substituem os seus truques por tiques.

Título internacional: Righteous Kill Realização: Jon Avnet. Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Carla Gugino, John Leguizamo, Curtis Jackson, Brian Dennehy Duração: 101 min. Estados Unidos, 2008

[Crítica publicada originalmente na revista Premiere, Dezembro 2008]

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