Pela oitava vez atrás das câmaras, Christophe Barratier apresenta em «Como por Magia» (2023) a história de um mágico, Victor (Kev Adams, «As Novas Aventuras de Aladino»). A surfar numa onda de popularidade e estabilidade familiar, Victor é apanhado totalmente desprevenido quando perde a mulher, que morre durante o parto e lhe deixa uma recém-nascida nos braços. À deriva, tem de reencontrar o caminho para o sucesso profissional, ao mesmo tempo que tenta proporcionar o melhor à filha Lison.

No processo, há duas personagens que se evidenciam: a amiga Nina (Claire Chust) e o sogro Jacques (Gérard Jugnot). A primeira, desbocada, força o seu regresso à normalidade, enquanto o segundo se envolve (na opinião do protagonista em demasia) na sua dinâmica familiar. De luto e à procura de sentido na vida, Victor encontra também a sua posição na dinâmica e percebe, que talvez, não seja Jacques a estar a mais.

«Como por Magia» (2023) é um filme simples, mas não simplista, que cria uma intensa e emotiva história familiar, ainda que suavizada por alguns momentos de humor. No entanto, a camada mais profunda está repleta de dor, seja pelas circunstâncias com que as personagens se deparam, seja pela sua frustração e tristeza intensa. E é então que o argumento assume contornos mais sérios e, em conversas fracas e dolorosamente honestas, revela fantasmas do passado que atormentam o trio no centro da narrativa.
Abandonados pelos pais, Victor e Nina travaram amizade na solidão que sentiam, no vazio por não encontrarem no mundo quem os quisesse. Já Jacques, e a filha entretanto falecida, tiveram de sobreviver numa dinâmica a dois, com todas as dificuldades que a rotina ia apresentando. A câmara de Barratier não é invasiva e o espectador é mantido a uma distância segura, com os intervenientes a ganharem, progressivamente, mais confiança para desabafarem e revelarem um lado mais frágil.

Não obstante, os momentos de humor são muitas vezes subentendidos e situacionais, com o público a ter uma vista privilegiada sobre interações que se tornam hilariantes, nomeadamente quando, continuamente, estranhos acham que Victor e Jacques – que não se suportam – têm uma relação amorosa. Mas eles não têm qualquer noção disso. Dessa forma, e de forma quase desajeitada, o filme consegue criar espaço para a audiência “respirar” da história forte que lhe é dada a conhecer.

Título original: Comme par magie Realização: Christophe Barratier Elenco: Kev Adams, Gérard Jugnot, Claire Chust Duração: 93 min.  França, 2023

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