Se o filme tem Vincent Macaigne no elenco, então vá vê-lo. É uma regra que funciona quase sempre. O ator, também realizador e encenador de teatro, parece estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas a verdade é que a sua exigência não baixa. Em «O Que É o Amor?», tenta desesperadamente anular um matrimónio religioso para poder casar pela igreja com a noiva, que vem de uma família profundamente católica. E uma conversa com Vincent Macaigne é sempre um momento encantador, com quem é igual ao que vemos no ecrã. Um pouco tímido e desajeitado, muito agradável no trato e de uma enorme inteligência.
Ao fazer este filme, descobriu o que é realmente o amor?
Vincent Macaigne: Se descobri, na minha vida, o que é o amor? Através do filme, sim. Para min, fala também de aprender a amar, apesar da recomposição de uma família. No filme, o amor não é apenas o amor romântico. É também perceber que, quando construímos algo com alguém durante anos, mesmo que depois nos separemos, essa coisa continua a existir. O que é esse amor? O que é essa família? Qual é o espaço que deixamos ao outro?
Imagino que não seja frequente receber um argumento tão original. É um filme com muitas camadas e muito bem escrito.
Vincent Macaigne: Concordo, está muito bem escrito. O que adorei foi também a premissa: a anulação do casamento perante Deus. Quando duas pessoas se casam na Igreja Católica, casam-se para a eternidade. Se quiserem divorciar-se, existe uma possibilidade muito rara: pedir a anulação do casamento. Mas, para anular um casamento, não basta invocar os mesmos motivos que num divórcio civil. É preciso explicar porque é que, perante Deus e perante a eternidade, aquele casamento nunca deveria ter existido ou deixou de fazer sentido. Parece uma fantasia, mas o filme baseia-se em factos reais.
“Rirmos juntos na sala de cinema faz toda a diferença“
Há muitos filmes sobre divórcios, mas nunca vimos nada assim.
Vincent Macaigne: Para anular um casamento são necessárias razões bastante extremas. Quando nos casamos pela Igreja, fazemos um compromisso para a eternidade. Portanto, para anular esse compromisso, é preciso apresentar motivos muito fortes. Foi isso que tornou o tema tão divertido e interessante.
Investigou esta questão da anulação dos casamentos?
Vincent Macaigne: Informei-me um pouco, mas quem fez um trabalho de investigação mais aprofundado foi o Fabien. Graças a isso descobrimos toda a maquinaria administrativa da Igreja Católica. É uma estrutura enorme, com advogados especializados em defender casais nos processos de anulação. São profissionais que conhecem especificamente o direito canónico, as leis do Vaticano e da Igreja. É um universo fascinante e pouco conhecido. Depois, os motivos podem variar, mas normalmente são sempre situações bastante extremas.
Mesmo que Mélanie Thierry interprete a sua noiva no filme, as suas cenas mais marcantes sáo com a Laure Calamy. Pode falar da vossa relação artística?
Vincent Macaigne: Conheço a Laure há muitos anos. Estudámos no Conservatório. Ela estava um ano acima de mim. Foi aí que a descobri. Trabalhámos muito juntos porque encenei vários espetáculos em que ela participou. É uma atriz de teatro extraordinária. Na verdade, trabalhei muito com ela como encenador, mas pouco como ator. Participou também numa longa-metragem que realizei, «Ce Qu’il Restera de Nous». Fizemos ainda outros projetos juntos e partilhávamos um círculo de amigos ligados ao cinema. E foi uma experiência muito especial para mim, porque o realizador é um dos meus melhores amigos.

Imagino que a experiência com ela neste filme tenha sido fantástica.
Vincent Macaigne: Foi muito bonita. Também foi estranha, porque já não trabalhávamos juntos há muitos anos. Muito tempo tinha passado. Foi divertido reencontrar alguém que conhecemos tão bem, mas num contexto completamente diferente. Eu conhecia-a sobretudo do teatro. E a Laure do cinema é quase outra pessoa.
O filme mostra diferentes formas de amor. Há o casal principal, a filha que tem uma namorada, famílias recompostas…
Vincent Macaigne: Sim, há muitas formas de amor. Marguerite vive numa família recomposta bastante intensa, com uma filha cheia de energia. Fred e Marguerite são os pais dessa filha, que vive uma relação amorosa com outra rapariga. Temos ainda Liès, o novo marido de Marguerite. Ele teve uma filha com ela, mas também ajudou a criar a filha que ela teve comigo. O filme não fala apenas de amor, mas da forma como as pessoas recompõem as suas vidas. Da maneira como as pessoas se juntam, com as suas formas particulares de amar, de reconstruir a vida, de ouvir os outros e de lhes dar espaço.
Sentimos sempre uma enorme ternura pelas suas personagens. Muitas vezes parecem ter uma certa ingenuidade. O Vincent Macaigne também é assim?
Vincent Macaigne: Já fiz personagens muito mais duras e complexas. A perceção depende muito dos filmes que cada pessoa viu. Tive a sorte de participar em projetos muito diferentes. Em «Furcy», que estreou recentemente, interpreto um proprietário de escravos numa época em que a escravatura ainda existia em França. Espero não ter nada em comum com essa personagem. Claro que partilhamos sempre alguma coisa com os papéis que fazemos. Mas o trabalho do ator não consiste em ser a personagem. Consiste em compreender profundamente o ritmo do filme, o universo do realizador e tornar-se parte dele.
Como foi o trabalho específico para criar esta personagem?
Vincent Macaigne: No caso de Fred, era importante encontrar aqueles silêncios, criar quase vazios dentro do filme. Momentos em que ele parece perdido, em que olha para Marguerite sem saber exatamente o que resta da sua vida. Isso foi construído de forma muito consciente. Eu estava atento a esses momentos. E tenho a certeza de que a Laure estava atenta a outra coisa: manter a energia da vida, manter o movimento. Enquanto eu procurava interromper esse movimento. Porque o meu personagem está a confrontar-se com os seus fantasmas. Tudo isso é trabalho de construção. Não é documental.

Interpreta frequentemente maridos traídos ou homens um pouco tristes…
Vincent Macaigne: (Risos.) Voltando à sua questão anterior, é verdade que já fiz algumas personagens um pouco ingénuas. Mas também fiz muitas outras coisas. Tenho a sensação de ter tido bastante sorte na diversidade dos papéis que me oferecem. Mas fiz muitos outros papéis que não têm nada a ver com maridos enganados ou melancólicos. Fico contente que o público aprecie o meu trabalho. O que procuro acima de tudo é trabalhar com realizadores diferentes, que me levem para territórios novos. É isso que me interessa.
Falando de realizadores, acabou de trabalhar com Radu Jude.
Vincent Macaigne: Sim. Trata-se de uma adaptação muito livre de «Journal d’une Femme de Chambre». Tenho um papel pequeno, mas adorei trabalhar com ele. Faço muitas vezes esse tipo de escolhas apenas para descobrir universos novos. Foi o caso de Pablo Larraín em «Maria». O papel era pequeno, mas queria muito fazê-lo. Também participei no próximo filme de Kirill Serebrennikov. Para um ator é uma sorte imensa poder atravessar universos tão diferentes e transformar-se completamente ao serviço de cada realizador.
Apesar do estatuto que já alcançou, não tem problemas em aceitar pequenos papéis…
Vincent Macaigne: Enquanto puder continuar a fazer filmes tão diversos, ficarei feliz. Tanto faz que sejam obras mais populares, mais exigentes, mais violentas ou mais leves. Adoro essa variedade. Nem todos os projetos têm o mesmo peso ou importância. Mas, sempre que aceito um filme, faço-o porque sinto um verdadeiro amor pelo cineasta.
Também mantém uma grande fidelidade ao cinema, numa época em que existe tanta pressão da televisão e das plataformas de streaming.
Vincent Macaigne: Também há uma parte de acaso nisso. Se amanhã me propuserem um grande filme para uma plataforma de streaming, aceitarei. Aliás, participei na versão para filme de «Dix Pour Cent» para a Netflix porque adoro a série. Portanto, não tenho qualquer preconceito. Mas continuo a achar que nada substitui uma sala de cinema. Absolutamente nada. E isso é válido para todos os géneros. Talvez até especialmente para a comédia.
Em que sentido?
Vincent Macaigne: Rirmos juntos faz toda a diferença. Mas não é apenas isso. Há também a escala. Hoje em dia as pessoas têm televisões grandes e pensam que veem os filmes em grande formato. Mas não é verdade. No cinema veem-nos em muito grande. E isso muda tudo. Godard dizia que a diferença entre ver um filme no cinema e vê-lo na televisão é que, no cinema, as personagens são dez vezes maiores do que nós. Na televisão tornam-se mais pequenas do que o espectador. E isso altera profundamente a experiência.
Fotos: © Manuel Moutier / © C Deuxième ligne films, Petit Film, France 3 cinéma




