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O Que é o Amor? – Fabien Gorgeart

Não terá sido por acaso que a conversa com o realizador de «O Que É o Amor?» se tenha realizado na cidade romântica por excelência, Paris. Como seria de esperar, não é por esta entrevista que o leitor ou a leitora vão descobrir o que realmente significa o amor. Felizmente, terão de o descobrir por si mesmos/as. Mas vão ficar a saber mais sobre uma das boas comédias francesas da temporada.

O seu filme começa com dois adolescentes a beijarem-se apaixonadamente. Quis pôr em paralelo a história dos protagonistas e um primeiro amor?

Fabien Gorgeart: Porque funciona como um espelho. Sem se aperceber, Marguerite acha que a história de amor da filha ocupa imenso espaço no quotidiano delas, quando, na verdade, será a sua própria história de amor, a ocupar quase todo o espaço, com todo este processo e as questões que ele levanta. Era uma espécie de falso flashback. E como estávamos a fazer um filme chamado «O Que É o Amor?», era preciso entrar imediatamente no tema.

Foi fácil dirigir os dois adolescentes?
Fabien Gorgeart: Há sempre a felicidade de apostar no casting, de fazer testes, de experimentar diferentes adolescentes. Com estes dois resultou. Tinham uma enorme facilidade em falar um com o outro, em brincar juntos, quando fizemos improvisações durante os castings. Beneficiei disso durante as filmagens. Houve uma forte convicção, desde o casting, de que iria funcionar.

Não foi propriamente discreto na forma como mostrou a relação entre os dois jovens.
Fabien Gorgeart: Hoje em dia, estas questões são trabalhadas através do que se chama coordenação de intimidade, sobretudo quando há um beijo. Tinha sido tudo preparado antecipadamente, por isso correu de forma extremamente simples. Confesso que estava um pouco apreensivo, porque queria muito aquele beijo. Mas, evidentemente, se eles estivessem tensos ou desconfortáveis, não teria acontecido. No final, correu tudo muito bem.

Quando era criança, Cristo era o meu amigo imaginário

Como é que descobriu estas histórias de anulação de casamentos religiosos? A matéria tem um enorme potencial cinematográfico…
Fabien Gorgeart:
Foi o meu produtor que me falou destes processos. Eu não fazia a mínima ideia, de todo. Depois descobri que existem bastantes em França. Fiz um enorme trabalho de investigação. Encontrei-me com padres, advogados eclesiásticos, mergulhei verdadeiramente no tema. Apaixonou-me. E, ao mesmo tempo, esfregava as mãos de satisfação, porque sentia que tinha encontrado um terreno de jogo perfeito para um filme. O meu filme anterior era um melodrama, muito inspirado pela minha história pessoal. No entanto, sempre me senti mais atraído pela comédia. Portanto, isto era perfeito.

Depois deste filme, acha que a taxa de casamentos católicos em França vai diminuir? Ou vai haver gente a querer anular os casamentos católicos?
Fabien Gorgeart: Nunca se sabe. Fizemos uma sessão-teste durante a montagem. Os espectadores vinham ver um filme-surpresa, sem saber o que iam encontrar. No final, um senhor aproximou-se de mim e disse: «Então isto funciona mesmo assim?» Respondi: «Sim, os processos de anulação funcionam assim.» E ele disse: «Muito bem, então vou fazer um.» Portanto, sim, é possível.

Laure Calamy e Vincent Macaigne são duas forças da natureza.
Fabien Gorgeart: Eu conhecia muito bem o trabalho deles. Durante a escrita comecei a pensar especificamente neles. Na realidade, formam uma espécie de casal artístico. Nunca foram um casal na vida real, mas estudaram juntos no Conservatório. A Laure participou nas primeiras encenações do Vincent. E descobrimo-los juntos no cinema num filme magnífico, «Un Monde Sans Femmes», de Guillaume Brac. Para mim, já eram um velho casal, acreditava muito nessa cumplicidade.

Como é que trabalhou com eles?
Fabien Gorgeart:
Tivemos algumas conversas sobre o argumento. Eu adoro trabalhar com atores e eles dão imenso. Às vezes fazia até improvisações quase terapêuticas para os libertar, para que pudessem exprimir tudo o que os atravessava. Depois encontramos sempre alguma coisa preciosa dentro disso. São extremamente generosos e muito precisos. E, acima de tudo, são pessoas muito inteligentes.

A cena de nudez da Laure Calamy no jacuzzi é inesperada e tratada com grande dignidade. Como a convenceu a fazê-la?
Fabien Gorgeart: Nesse aspeto, ela não tem qualquer problema. É uma atriz extremamente generosa e não possui esse tipo de pudor. Sentia que era essencial mostrar uma mulher que se assume completamente. Uma mulher que se encontra naquele momento de dúvida, se estará a fazer a coisa certa ou a errada, mas que avança sem hesitação, inteira, comprometida consigo própria.

Filmar em Roma é o sonho de um cineasta?
Fabien Gorgeart: Infelizmente, durante a preparação do filme, Roma estava cheia de obras por causa do Jubileu. Muitos dos locais que queria filmar estavam inacessíveis. Tivemos de reinventar tudo. Passei noites inteiras em Roma, de scooter e de táxi, à procura de lugares que funcionassem. Foi maravilhoso. Tive a impressão de mergulhar noutros filmes e de guardar um pouco deles para o meu.

Já disse que tinha sido influenciado por Bellocchio e Moretti.
Fabien Gorgeart: São dois cineastas que adoro profundamente, por razões muito diferentes, porque os seus cinemas não se parecem em nada. Foram dois encontros fundamentais na minha vida de espectador.

O que acontece no final, com todas aquelas famílias juntas, é algo muito raro na vida. Considera o seu filme moralista ou subversivo?
Fabien Gorgeart: É uma boa pergunta. Moralista, não sei. Se quis contar esta história, foi também porque me separei há quatro anos da mãe da minha filha, que hoje tem nove anos. Este filme era uma espécie de declaração de amor para ela. Uma forma de dizer que ficará sempre alguma coisa entre nós. Somos pais em conjunto. Ela recebeu o filme muito bem. Também o fiz para a minha filha. Para lhe dizer que, ao contrário do que a Igreja tenta provar, o amor não funciona por anulação. Funciona por acumulação. Queria que fosse um filme de reunião.

Ao contrário do que possa parecer, o seu filme não é contra a religião, mas contra algumas das suas instituições…
Fabien Gorgeart:
Essa questão é muito importante para mim. Sinto-me profundamente sensível à religião, embora não tenha respostas definitivas. Quando era criança, era muito crente. Jesus era quase o meu amigo imaginário. Depois cresci e essa dimensão desapareceu um pouco. Mas regressou com muita força através do cinema. Não é uma questão de fé religiosa. É uma questão de interesse e de sensibilidade. Sejamos crentes ou não, não entramos numa igreja como entramos num parque de estacionamento. Há sempre alguma coisa que nos habita. Porquê? Existem muitas explicações possíveis. E eu adoro não responder a essa pergunta.

Há alguns anos, a Igreja Católica era muito sensível face a certos filmes, como «A Última Tentação de Cristo» ou «Je Vous Salue, Marie». Recebeu alguma reação desse género?
Fabien Gorgeart: Nas primeiras projeções já tive oportunidade de mostrar o filme a vários públicos. E algumas pessoas ligadas à Igreja vieram falar comigo após as sessões. O filme não parece estar simplesmente a ridicularizar a questão. Existe emoção, existe verdade e existem perguntas genuínas. No filme diverti-me a explorar essas ideias. E tive a sensação que as pessoas perceberam que o filme não é um ataque frontal.

Estamos então à espera da reação do Papa?
Fabien Gorgeart: Estamos todos à espera. (risos)

Para terminar a nossa conversa, conhece alguma história de amor, num romance, num filme ou noutra obra, que represente particularmente bem aquilo que considera ser o amor?
Fabien Gorgeart: Tenho uma resposta, mas não é uma referência fundadora. É algo que li recentemente. Chama-se «Wellness», de Nathan Hill. É um romance americano. Gostaria muito de o adaptar para teatro, mas a Disney adquiriu os direitos para uma série e agora já não é possível. O que adoro nesse livro é que acompanha um casal. O primeiro capítulo mostra como eles se conhecem e se apaixonam. Depois reencontramo-los vinte anos mais tarde.

Sem revelar muito, para quem queira ler o livro, o que se passou entretanto?

Fabien Gorgeart: Vemos onde estão, tudo aquilo que sofreu desgaste dentro da relação, todas as feridas acumuladas. Mas também vemos como continuam a tentar. É um romance sobre conciliação, reconciliação e reparação. A forma como o autor trata essas questões é extraordinária: muito divertida, por vezes absurda, por vezes perturbadora. Mas questiona tudo de forma brilhante. E isso fascina-me profundamente: como fazemos para que as coisas resultem? Como trabalhamos para que uma relação funcione?

Foto: © Deuxième ligne films, Petit Film, France 3 cinéma

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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