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Como Aprendeu Cinema com Hitchcock

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

Depois de levar Alfred Hitchcock a sério, nunca mais viu um filme descansado. Aprendeu sobre cinema com Alfred Hitchcock antes de conseguir falar e escrever seriamente sobre o assunto. E isso, visto à distância, explica muita coisa, além da escolha desta profissão e incluindo alguma impaciência crónica com filmes que não sabem muito bem o que querem. O primeiro encontro verdadeiramente sério com Hitchcock no grande ecrã aconteceu em 1982, num daqueles momentos fundadores que só se reconhecem mais tarde: o ciclo organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com a Cinemateca Portuguesa. Até aí, Hitchcock era para ele um realizador visto aos bocados, na televisão, interrompido por anúncios, jantares, campainhas e pela vida de quase adulto a acontecer sempre no pior momento possível. Não havia DVD, eram tudo cópias em 35 mm, muitas não legendadas em português. Foi naquela sala escura, no Grande Auditório, que percebeu uma coisa simples e perturbadora: o cinema não era apenas uma história, era uma máquina emocional afinada ao milímetro.

Sempre que pensa nessas sessões, lembra-se das gargalhadas do então jovem professor — e mais tarde crítico — Mário Jorge Torres (1949–2025), falecido há poucas semanas. Gargalhadas altas, inesperadas, quase indecorosas para um “clássico”. Foi ali que percebeu que Hitchcock não era só tensão e angústia: era também crueldade divertida, humor negro, prazer puro de manipular o espectador. O riso de Mário Jorge ensinou-lhe que levar o cinema a sério não implica nunca levá-lo de cara fechada.

O catálogo desse ciclo, organizado por João Bénard da Costa, com a concepção gráfica marcante do cineasta João Botelho, foi o seu primeiro manual de cinema e talvez o único que leu como quem lê um romance policial. Não romantiza demasiado: leu-o de uma ponta à outra porque estava agarrado, não porque quisesse aprender. Só mais tarde percebeu que estava a aprender tudo: obsessão, rigor, atenção ao detalhe. Ainda hoje guarda esse catálogo e as Folhas da Cinemateca, já amareladas, como quem guarda provas de um crime antigo, e recorre a elas muitas vezes, não por nostalgia, mas porque continuam a funcionar e a servir de memórias.

E Hitchcock ensinou-lhe uma lição essencial: cinema não é a vida tal como ela é; é a vida como podia ser se lhe tirássemos as partes chatas. Quando ele dizia que “certos filmes são fatias de vida, os meus são fatias de bolo”, estava a ser brutalmente honesto. Queria seduzir, manipular, agarrar o espectador pelo colarinho e não o largar durante duas horas. E conseguia. Porque nada estava ali por acaso: cada plano tinha uma intenção, cada corte uma maldade, cada silêncio uma ameaça.

Por isso, com Hitchcock percebeu que o cinema é, antes de tudo, visual. Que a história entra pelos olhos antes de chegar à cabeça. Que o espectador não vai ao cinema para descansar, mas para participar, sofrer, desejar e ter medo, coisas que hoje parecem ir-se perdendo com o streaming. Aprendeu também que o suspense não vive de explosões, mas de espera; não de barulho, mas de tempo; não de efeitos especiais, mas de portas que se abrem devagar e de objectos banais que, de repente, parecem perigosos.

Ainda hoje, quando um filme não lhe pede nada, sente que também não lhe deu nada. Hitchcock ensinou-o a desconfiar da facilidade, do conforto e da neutralidade. E, sem dar por isso, ensinou-o também a exigir mais do cinema e de si enquanto espectador e jornalista. Desde então, nunca mais confiou totalmente num filme simpático. Desconfia de histórias demasiado bem-comportadas, de personagens que explicam tudo e de finais que pedem aplauso. Entra sempre na sala à espera que algo corra mal — e fica desiludido quando não corre. Culpa do Hitchcock. Ensinou-o que o cinema, como a vida, só começa quando alguém escorrega, mente ou esconde qualquer coisa no bolso. E que, se no fim não ficou um bocadinho desconfortável, então provavelmente viu apenas uma fatia de pão duro. Não era bolo.

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