Estrelada por Alice Braga, uma adaptação de “Dans le Jardin de l’Ogre”, febril romance de Leila Slimani, a autora franco-marroquina do premiado “Canção de Ninar”, está a caminho do ecrã, a se chamar literalmente «No Jardim do Ogro». A realização será de Carolina Jabor. O seu histórico guarda um filme que é uma joia: «Boa Sorte» (2014). É uma longa-metragem que carece de mais prestígio do que tem.
Sabe aquela sensação visceral de ser engolido pelo ideal cinematográfico do amor romântico, que «Jules et Jim» (1962), de François Truffaut, fica no espectador a cada vez que o vemos? Então… o impacto lírico que «Boa sorte» pode causar vai na mesma intensidade. Só há uma ressalva: é um «Jules et Jim» de dois, pois o máximo de triangulação que existe é um homem, uma mulher (uma inspirada Deborah Secco) e um vírus, o HIV. Este é faminto por saúde. Os outros dois vértices do triângulo estão com fome de um abraço capaz de abrigar as suas carências, as suas demandas incompletas, seu vazio todo.
Para um filme de estreia na ficção, o trabalho de Carolina — realizadora, com Lula Buarque de Hollanda, do documentário «O Mistério do Samba», de 2008 — surpreende pela sua maturidade na arquitetura dos enquadramentos e na direção dos atores. A sua passagem pela Mostra de São Paulo – após ganhar o prémio de júri popular e de direção de arte em Paulínia, em julho de 2014 – foi consagradora, de lotar salas e arrancar aplausos aos quilos. Diante de um conto curto de Jorge Furtado, “Frontal com Fanta”, que serviu como a sua espinha dorsal, a cineasta carioca conseguiu um alongamento arejado, sem forçar viradas nem colisões inusitadas. É daquele tipo de trama de amor que ganha a plateia pela leveza.
Depois de sua entrega radical ao bas-fond para «Bruna Surfistinha» (2011), Deborah provou ter vontade de potência para estar entre as grandes atrizes do cinema brasileiro (Norma Bengell, Fernanda Torres, Marília Pêra, Carla Ribas, Alice Braga, Leandra Leal). Mas em «Boa sorte», potência vira ato: no papel de Judite, jovem que vive com HIV, ela vira uma Jeanne Moreau dos trópicos, capaz de abrir mão das vaidades (e do próprio peso) para compor uma figura nas raias da Morte. Judite foi parar num sanatório para toxicômanos a fim de limpar as veias das drogas que sorveu.
O argumento, escrito a quatro mãos pelo próprio Jorge Furtado e o seu filho, Pedro, finta os clichés da desordem arrependida visto em obras de vulto como «Clean» (2004), do francês Olivier Assayas. Ele faz de Judite um tipo irredutível em relação à sua voracidade de viver. Mesmo doente terminal, ela não arreda o gosto pela sua rebeldia, como era a apaixonante Catherine de Jeanne Moreau em «Jules et Jim». Deborah entende bem os dribles de pai Furtado e Furtado filho, garantindo à sua Judite tridimensionalidade, a partir de um jogo de olhares capaz de expressar a vontade da jovem em curtir até o fim. Só que o curtir aqui envolve um excesso que não é etílico, nem venoso, e usa preservativo: o excesso do bem-querer.
Ao lado de Judite aparece João (João Pedro Zappa, de «Gabriel e a Montanha»), um estudante que vai parar na mesma clínica para se libertar da dependência em Frontal e bolotas coloridas afins. Ele crê que a mistura do ansiolítico com refrigerante de laranja pode lhe garantir invisibilidade. João se sente alvo da indiferença do carinho do mundo. Ser invisível é apenas um detalhe para quem não é enxergado pelos pais (Gisele Fróes e Felipe Camargo). Mas, uma vez iniciado seu detox, ele se percebe notado por Judite. E, aos poucos, luta para que ela faça mais do que notar seus passos e suas tentativas de roubar dela um beijo.
É uma ode ao benquerer.




