Na origem do projecto «Black Bag», 2025, de Steven Soderbergh, encontramos o cruzamento de algumas das mais importantes vertentes da produção cinematográfica, a saber, o argumento, a realização e, neste caso como em casos anteriores, a fotografia maioritariamente assumida pelo próprio realizador. Podíamos ainda referir a montagem, mas essa articula-se aqui em grande medida a partir dos ângulos de câmara previamente definidos, sem no entanto a eles estar condicionada de forma redutora. Na prática, há muito espaço de manobra para o desenvolvimento destas disciplinas num conjunto global e de grande eficácia, sobretudo quando aquilo que importa salientar passa por dar peso, significado e movimento relativo ao percurso e posicionamento dos actores no exercício de composição das suas personagens no interior do espaço fílmico definido pelas quatro linhas do enquadramento. De facto, um dos melhores exemplos desta noção de fluidez e dialéctica narrativa será dado logo ao início. Em plano sequência, acompanhamos um homem de costas num movimento contínuo através de uma multiplicidade de ambientes que parte do exterior urbano e nocturno de uma localização não identificada da cidade de Londres, passa pelo interior de um clube e logo a seguir desemboca numa espécie de beco escuro mas aparentemente seguro, onde finalmente uma outra personagem lança as cartas de um desafio que envolve a espionagem e a dúvida. Traições há muitas, mas a de que os dois homens falam naquele sítio isolado pode ser a mais difícil de engolir porque implica avançar contra alguém com quem se partilha a casa, a cama, numa palavra, a pessoa por quem se nutre mais do que uma simples amizade ou cumplicidade existencial. Trata-se assim de assumir a investigação sobre um grupo de agentes de elite dos serviços de informação conhecido pela sigla NCSC (National Cyber Security Centre) que inclui, entre outros, aquela por quem o agente George Woodhouse (Michael Fassbender) jura estar disposto a matar, ou seja, a sua bem-amada mulher Kathryn St. Jean (Cate Blanchett). Para não lhe ficar atrás, mais adiante ela irá dizer o mesmo numa espécie de confissão, sem quaisquer contornos românticos. Pelo contrário, parece, isso sim, ser o juramento de guerra que os operacionais ao nível de um comando verbalizam antes da missão por cumprir. Tudo o que a partir das primeiras sequências visionadas serviu para nos fornecer as pistas capazes de conduzir a uma resolução do citado conflito passa por um emaranhado de diálogos e situações materialmente relevantes que vão pontuando um percurso sinuoso de espionagem e contraespionagem durante o qual as baixas em combate se sucedem, diríamos, de um modo quase inevitável. Mas em «Black Bag», expressão que significa o lugar onde se escondem os segredos, sentimos que há sempre uma mão invisível que procura manipular o ritmo e a intensidade das operações, incidindo nas sombras e na figura de George Woodhouse enquanto polo ficcional da acção, imaginada pelo argumentista David Koepp e materializada pela realização de Steven Soderbergh.

Neste jogo de máscaras em que a verdade e a mentira se digladiam, muita água irá passar por debaixo das pontes erguidas entre os agentes visados, Clarissa (Marisa Abela), Zoe (Naomie Harris), James (Regé-Jean Page) e Freddie (Tom Burke), incluindo os sucessivos fluxos e refluxos provocados pelos desvios comportamentais que afectam a intimidade do casal Woodhouse. Todos podem ser culpados. Já agora, de quê? Bom, Steven Soderbergh reformula um velho conceito e um expediente do suspense muito utilizado por um realizador como Alfred Hitchcock, o McGuffin. Diz-se a certa altura que existe uma perigosa e seguramente ultra-secreta arma cibernética capaz de desestabilizar o núcleo central de instalações nucleares, chamada Severus. Esta pode estar a caminho de mãos estrangeiras, como sucedia nas ficções desenroladas nos anos quentes da Guerra Fria. Mas a sua função passa apenas, e já não é pouco, pela capacidade de esse expediente ficcional provocar um grau consistente de contradições entre as personagens dos serviços secretos eventualmente implicadas e os potenciais perigos que representam, mais do que entre a velha equação Ocidente versus Leste.

Em suma, «Black Bag» assume-se desde o primeiro fotograma como um spy-thriller, situado entre Londres e Zurique, onde agentes especiais dão a cara num mosaico de razões convergentes e divergentes que na maior parte das sequências os compromete no interior do seu próprio círculo íntimo. “Black Bag” consegue ainda manter as nossas expectactivas e não poucas interrogações, qual sal e pimenta de uma história bem cozinhada e que a realização propõe ser degustada com a devida calma, sem grandes correrias nem recurso a efeitos especiais ou gadgets desnecessários.

Nota máxima para a Direcção de Fotografia, para o elenco principal (onde encontramos um antigo “agente secreto” ao serviço de sua majestade, Pierce Brosnan) e para a banda sonora musical, perfeitamente compatível com o género fílmico e com o ritmo e o intrigante pulsar narrativo que a produção desejou imprimir. 

Título original: Black Bag Realização: Steven Soderbergh Elenco: Michael Fassbender, Cate Blanchett, Regé-Jean Page, Tom Burke, Gustaf Skarsgård, Naomie Harris, Pierce Brosnan Duração: 93 min. Reino Unido, 2025

[Crítica originalmente publicada a 12 de Março de 2025]

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