O GÉNIO DO MAL: O INÍCIO

O GÉNIO DO MAL: O INÍCIO

Precisávamos realmente de dissipar o mistério por detrás da concepção e nascimento de Damien, o anticristo forjado no clássico de terror «The Omen – O Génio do Mal» de Richard Donner (1976)? A resposta é um óbvio não, mas aí está ele, a prequela desse episódio oportunista do 666 (dia 6, do mês 6 e do ano 6), que contou com mais três sequelas e um remake ainda mais intrusivo nessa data maldita. Contudo, voltemos às origens, ao primeiro “Omen”, esse “demoniozinho” criado no seio da Igreja, onde o prenúncio das trevas alimenta a sua crença. Aqui, dirigido por Arkasha Stevenson e estampado com o selo 20th Century (sem Fox) mas detido pela Disney, é um típico terror de estúdio orquestrando jumpscares com a mais breve automatização. Porém, mesmo seguindo a lista de encargos e correspondendo aos padrões do seu público-alvo, há neste corpo um outro filme que deseja ser parido.

Para além da atmosfera, a obscuridade de uma fotografia da autoria de Aaron Morton que se conecta com as propriedades do 35 mm, «O Génio do Mal: O Início» tende a demonstrar conhecimento pelo seu legado no género. Não com vénias ou juras à franquia que nunca descolou (a banda sonora de Mark Korven a seguir as pegadas da original de Jerry Goldsmith), mas também à sua órbita em eventuais piscadelas de olhos a John Carpenter («Príncipe das Trevas») ou a Andrzej Zulawski («Possessão»), tentando romper com o útero da sua convencionalidade e aventurar-se no gráfico ou no sugestivo. Quem procura a linguagem já banalizada de um «The Conjuring» ou das enésimas produções de Blumhouse poderá surpreender com as guinadas que Stevenson apronta, e um humor mórbido que deixa, por vezes, escapar, isto sempre acompanhado pela solidez performativa de Nell Tiger Free.

Sem com isso provar «O Génio do Mal: O Início» como algo mais do que pretendido, o argumento tem os seus impasses e o seu desconecto aceleramento. A verdade é que a sua aparente esquizofrenia, dois filmes em conflito num só útero, lançam-nos uma ideia de quando o terror americano era mais do que o dispositivo jumpscares. Voltando ao ponto de partida: precisávamos disto? Não, mas também não há que ser bruto, vale o propósito e a sugestão.

Título original: The First Omen Realização: Arkasha Stevenson Elenco: Nell Tiger Free, Ralph Ineson, Sonia Braga, Charles Dance, Bill Nighy Duração: 120 min. EUA/Reino Unido, 2024