«Anaconda» junta comédia com monstros escamosos com equilíbrio… e muito bom humor.

Num momento crucial do divertidíssimo «Anaconda» (versão 2025), Jack Black afirma: “Não temos mais uma cobra para o nosso filme de cobras”. Em inglês, o termo snake movie, literal, evoca um registro exploitation do tempo no qual répteis povoaram écrans, como «Sssssss», de 1973 (que foi visto em Portugal como «Cobras Venenosas» e foi chamado no Brasil de «O Homem Cobra»). A longa-metragem de Tom Gormican põe Black, Thandiwe Newton, Paul Rudd, o gigante brasileiro Selton Mello e Steven Zahn a correr de uma serpente quilométrica. Ela faz jus à tradição acima, que engloba ainda o mítico «Alligator» (1980), de Lewis Teague. No entanto, consegue ser mais tributária ao legado hollywoodiano do riso. Gormican presenteou Hollywood com uma supercomédia, ou seja, um grande exercício cómico que cai no circuito exibidor como ave rara, bem acompanhado apenas de «The Naked Gun», um remake.   

Seth MacFarlane, o criador da animação «Family Guy», é um dos produtores da nova versão da saga do policial Frank Drebin. Mais do que isso, Seth foi o responsável pelo último fenómeno humorístico de Hollywood: «Ted» (2012), aquela deliciosa comédia na qual um adulto (Mark Wahlberg) tinha como melhor amigo um ursinho de pelúcia falante. A sua arrecadação na venda de ingressos aproximou-se dos US$ 550 milhões há… 14 anos.

Desde então, nos EUA, o género que presenteou o planeta com Buster Keaton, Mae West, Jerry Lewis, Lucille Ball, Goldie Hawn, Steve Martin, Lily Tomlin, Jim Carrey e gigantes afins não teve mais cifras astronômicas nos multiplexes. O seu dínamo mais imbatível, Adam Sandler, que lotou salas de 1998 (quando lançou «The Waterboy») até 2011 (ano de «Jack and Jill»), migrou para a Netflix há uma década. Lá, sob a dublagem indefectível de Alexandre Moreno, ele reina no Brasil. Não é por acaso que uma das suas longas mais recentes, «Happy Gilmore 2», que estreou no fim de julho na plataforma, tornou-se um dos maiores sucessos do streaming nesta temporada.

Falando em comédias, o Brasil emplaca neste fim de semana o que pode ser uma nova coqueluche: «Agentes Muito Especiais», com Marcus Majella e Pedroca Monteiro a interpretarem dois policiais gays num cenário de lei homofóbico. Em solo brasileiro, Ingrid Guimarães, Mônica Martelli, Maurício Manfrini (o Paulinho Gogó) e Tatá Werneck seguem a dar lucro. Já nos Estados Unidos… O patrulhamento moralista por lá encalacrou a paródia, a piada, a “mockery”; talvez por isso, o novo “Anaconda” necessite de ser um híbrido. É comédia e é, também, monster movie, daqueles que nos perturbam.

Carlos Santiago, um personagem que fala absurdos, mas sem forçar a barra na estranheza, é o condutor da porção mais… escamosa… de «Anaconda» e funciona como um enorme abre-alas para a carreira que Selton (astro de bilheteiras milionárias e realizador de sucesso na América do Sul) pode ter em solo estrangeiro. Ele encarna um mood Will Ferrell hilariante. Neste momento em que comemora as duas décadas da sua estreia na realização, com a curta «Quando o Tempo Cair» (2006), o astro de Minas Gerais descortina uma interpretação pícara no cinema dos EUA. O seu Carlos Santiago é quem vai ajudar uma turma de aspirantes a artistas dos Estados Unidos a se embrenharem pelas matas amazônicas. Lá, a câmara de Gormican eterniza situações hilariantes, entre as quais a sequência em que Black corre a carregar os restos mortais de um javali preso ao corpo.


Realizado pelo peruano Luis Llosa (primo do escritor Mario Vargas Llosa), o «Anaconda» dos anos 1990 custou US$ 45 milhões e arrecadou US$ 137 milhões, estabelecendo JLo como estrela das telas, para além da sua carreira como cantora. Ela integrava um grupo de expedicionários em busca de tesouros da fauna brasileira que eram atacados por uma serpente quilométrica… e cheia de fome.

Na releitura de 2025, dirigida por Gormican (que filmou «The Unbearable Weight of Massive Talent» com Nicolas Cage, em 2022), Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) são amigos de fé e irmãos camaradas desde crianças. Eles sempre sonharam em refazer o filme favorito da vida deles: o “clássico” cinematográfico de Llosa. Quando uma crise de meia-idade baixa no ar, agravada por conflitos financeiros, eles decidem tentar e seguem para os confins da Amazônia para começar as filmagens. Naquele mundaréu verde, Santiago, expert em cobras, vai ajudá-los, mas o barco que eles esperavam dar na própria sorte termina depois que uma anaconda GCI de verdade aparece, transformando o set caótico e cómico em um convite à morte. A presença de Daniela Melchior como um alvo (ou quase) de criminosos ligados à extração ilegal de bens amazônicos amplia o rol de riscos na trama, que se torna mais tensa no embalo da banda sonora do músico David Fleming.


A orquestração dele é tão sinestésica quanto a cinematografia de Nigel Bluck, que dialoga bem com a cartilha dos tais monster movies reptantes citados acima. A montagem de Craig Alpert e de Gregory Plotkin é um primor na trança entre códigos dos múltiplos registros de género usados em cena. A edição afinada é a força que mais auxilia Gormican a exercitar a sua linha de autoralidade calcada em metalinguagens.

Título original: Anaconda Realização: Tom Gormican Elenco: Jack Black, Paul Rudd, Steve Zahn, Thandiwe Newton, Daniela Melchior, Selton Mello Duração: 99 min. EUA, 2025

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