Com um olhar simultaneamente satírico e comovente sobre os relacionamentos digitais, «Amor Sem-Wifi» retrata uma geração suspensa entre a intimidade virtual e o vazio do contacto real, levantando a questão: poderá o amor resistir quando se desligam os ecrãs?
«Amor Sem-Wifi» é uma série norueguesa criada por Jakob Rørvik, que acabou por conquistar o seu espaço fora das fronteiras da Noruega. Depois de vencer alguns prémios, nomeadamente o de Melhor Série na secção Panorama Internacional do festival Series Mania, chega a Portugal através do canal TVCine Edition. São apenas sete episódios, todos curtos, mas há neles muito mais do que parece à primeira vista.
Entre momentos de humor e de melancolia, a série propõe uma reflexão íntima e atual sobre a forma como nos ligamos uns aos outros num mundo em que quase tudo passa por ecrãs. Vivemos tempos em que o afeto cabe num emoji, sendo que esta história nos convida a parar e pensar no que acontece quando, de repente, a ligação falha.
A protagonista Ida (Gina Bernhoft Gørvell) é uma jovem que vive grande parte da sua vida emocional online. Tem uma relação intensa e constante com Marvin, um rapaz americano interpretado por Jacques Colimon. Nunca se viram cara a cara, mas conhecem-se como poucos. A intimidade foi sendo construída com avatares, chamadas de vídeo e pequenos mundos virtuais. Para Ida, aquilo era amor. Até que Marvin decide acabar tudo e seguir com alguém na vida real. Ida fica desorientada; a dor é real, apesar de tudo ter acontecido num espaço digital. E a partir daí começa a sua tentativa de provar, sobretudo a si própria, que também é capaz de amar fora do ecrã. O que parecia simples revela-se estranho, desconfortável e, em muitos momentos, profundamente solitário.

O que torna «Amor Sem-Wifi» tão marcante é a forma como retrata uma inquietação muito reconhecível. A dificuldade em saber o que é verdadeiro num tempo em que tudo pode ser editado, partilhado, filtrado. A série não aponta o dedo, nem tenta dizer o que é certo ou errado. Limita-se a observar, com cuidado e sentido de humor, como nos vamos habituando a medir a atenção em tempo de resposta e o amor em quantidade de notificações. Ida, com todas as suas inseguranças, mostra-nos uma verdade incómoda.
Não há grandes reviravoltas nem discursos épicos. E ainda bem. «Amor Sem-Wifi» escolhe o caminho mais difícil, o da subtileza. Recusa o cinismo, evita a nostalgia. Prefere as perguntas difíceis às respostas prontas. E talvez por isso se destaque entre tantas séries sobre relações modernas. Fala-nos de algo muito concreto, muito do agora, mas fá-lo com uma leveza rara. E mesmo sendo claramente marcada pelo seu tempo, o que a série nos mostra, a solidão em plena hiperconetividade e a procura por uma ligação que seja mais do que instantânea, diz respeito a todos.
É uma série pequena em duração, discreta na forma como se apresenta, mas com um impacto que se sente. Fica a ecoar depois de vista. Faz-nos pensar em como amamos, como nos mostramos aos outros e no que é que sobra quando, de repente, ficamos sem rede.
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