«A Zona de Interesse» é um filme avassalador. A obra foi escrita e realizada por Jonathan Glazer («Debaixo da Pele») a partir do livro homónimo de Martin Amis, tornando-se um retrato mais objectivo da família do comandante do campo de concentração de Auschwitz. O filme de Glazer consegue ser um objecto de arte e, ao mesmo tempo, um acto de interrogação perante a indignação, e não estamos a falar apenas do passado…

«A Zona de Interesse» é uma descida às profundezas do terror, sem nos dar a ver uma única imagem explicita dos horrores do campo de extermínio de Auschwitz. As únicas imagens que vemos de Auschwitz são dos telhados, as chaminés incandescentes e os comboios a chegarem. A acção desenrola-se na moradia dos Höss, é a casa que sonharam ter desde os 17 anos, com um jardim cheio de flores e ladeado por muros altos e… arame farpado. O filme é muito subtil e apela à nossa atenção aos detalhes – que nos esmagam por completo – veja-se as botas do comandante Höss, que não entram em casa, e quando são ritualmente lavadas têm mais sangue do que lama…

Em termos narrativos, encontramos dois veios principais nesta obra, a vertente pessoal, através da relação familiar de Rudolf Höss (Sandra Hüller) e Hedwig Höss (Christian Friedel), e a consciencialização da metodologia de extermínio em massa. Ao longo do filme, apercebemo-nos de que ambas as vertentes andam de mãos dadas na família Höss, por detrás das aparências, eles são verdadeiros monstros. Quando Hedwig se aborrece recorda a uma criada judia que ela podia ser transformada em cinzas… A família não possuía um pingo de empatia.

O casal é fiel ao título desta obra, eles lutam pela sua zona de interesse, o seu pedaço de céu ao lado do inferno. O importante é a sua felicidade e aquilo que construíram no campo. O cérebro da operação no terreno cumpria a missão com um sorriso nos lábios e com enorme dedicação aos superiores nazis.

O protagonista do filme, Rudolf Höss, foi o responsável de Auschwitz durante cerca de 4 anos. Neste lugar morreram mais de um milhão de pessoas. No filme vemos as capacidades e a frieza do genocídio em massa orquestrado por esta “abelhinha mestra”, seja através da criação de novos métodos de extermínio, seja nas suas intervenções nas reuniões de coordenação do aparelho nazi. O filme aflora o aumento da capacidade das câmaras de incineração e a Operação Höss. Apesar de conhecermos os factos, é com estupefação que observamos como seres humanos inteligentes, cerebrais e produtivos lidavam com morte em massa, como se se tratasse de mais um processo de produção industrial.

O espectador tem um papel activo neste filme, ao mergulhar nos sons infernais que rodeiam a vida idílica dos Höss. Esses sons são de horror, gritos de agonia, cães a latir, armas a dispararem e até uma grotesca ordem de execução escutada pelo filho mais novo de Höss. É um exercício desconcertante de contraponto a todos os acontecimentos de uma família que, à primeira vista, é composta por pessoas adoráveis e bastante sociáveis. E nesse aspecto estamos perante um filme provocador, que se desenrola em 1940, mas que é bem actual do ponto de vista emocional e comportamental. Na realidade aborda o tema da indiferença e da convivência com os monstros à nossa volta, mas especialmente o sofrimento que está à nossa beira e da cegueira selectiva das sociedades modernas. Num mundo onde os discursos deixam a demagogia e se tornam perigosamente reais e dementes, com o racismo e a discriminação a serem uma bandeira para atingir um fim, a assustadora verdade é que não há assim tanta diferença entre o passado e o presente. Esta obra relembra o mundo que estamos cada vez mais próximos de um passado horrendo.

Título original: The Zone of Interest Realização: Jonathan Glazer Elenco: Sandra Hüller, Christian Friedel, Freya Kreutzkam Duração: 105 min. EUA/Reino Unido/Polónia, 2023

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº102, Janeiro 2024]

ARTIGOS RELACIONADOS
Project Hail Mary – trailer

Project Hail Mary é um filme americano de ficção científica e aventura produzido e realizado por Phil Lord e Christopher Ler +

ANATOMIA DE UMA QUEDA

Não há melhor forma de começar o ano: visionar um filme de qualidade, escrito e realizado com inteligência e crueza, Ler +

DEBAIXO DA PELE

«Debaixo da Pele» não deve ser procurado nos filmes anteriores do realizador; trata-se claramente de um filho único, excêntrico e Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.