Num futuro, mais ou menos, próximo, quando a histeria e demência das chamadas guerras de género e sexo, o totalitarismo do chamado politicamente correcto e o sinistro ‘presentismo’ – a absurda doutrina que pretende interpretar toda a história humana pela perspectiva actual, os historiadores vindouros terão um verdadeiro maná onde decerto se interrogarão sobre os limites da sanidade da sociedade ocidental e a sua inevitável decadência.

Um exemplo da inversão de valores em Hollywood e a deliberada tentativa de reescrever a história de acordo com uma agenda revisionista é este filme a Mulher-Rei, de Gina Prince-Bythewood, que nos leva até às primeiras décadas do século XIX no reino de Daomé (hoje Benin), na costa da África ocidental. O filme centra-se na história das Agojie, a exclusivamente feminina guarda real do rei Ghezo, que tenta ao mesmo tempo expandir o seu reino e lutar contra o flagelo da escravatura.

Porém, este filme cria uma narrativa alternativa onde um monarca visionário procura não só combater a escravatura como os seus vizinhos que querem submeter o seu reino. Como curiosidade, importa referir que as Dora Milaje, a guarda real do fantasioso reino de Wakanda, são de facto inspiradas nas Agojie.

Hollywood nunca soube resistir a uma dramatização excessiva dos factos históricos, se isso lhe trouxer mais ‘espectacularidade’ e a assunção dos valores hoje tidos como correctos.

A verdade é que sim, as Agojie foram uma força militar feroz e muito eficaz, que contribuiu de forma decisiva para o alargamento das fronteiras do Daomé, mas foram também instrumentais no incremento do tráfico de escravos, que eram vendidos a negreiros europeus ou seus descendentes. Nesta fita os ‘maus’ também são brancos, nomeadamente portugueses-brasileiros. No entanto, convido o espectador a tentar perceber o que quer que seja que os colonos esclavagistas falam, será alguma coisa mas português ou brasileiro decerto não é. Isso levar-nos-ia a discutir o ‘rigor’ que os produtores puseram na recriação dos ritos e costumes do Daomé oitocentista, mas adiante.

A intriga centra-se em torno de Nanisca, a líder das Agojie, que tudo faz para servir o seu rei, porém revela uma costela anti-esclavagista que pôe em causa a sua posição na hierarquia do reino. Com as suas companheiras mais próximas e uma jovem recruta com quem tem uma relação algo ambivalente, Nanisca luta pela causa do Daomé com toda a ferocidade e empenho. A narrativa, em termos globais, é algo tradicional, dando-nos uma heroína (Viola Davis, sempre excelente e algo assustadora) que triunfa apesar de uma série de contra-tempos, afirmando um primado de valores que a pôe mais perto de 2020 do que 1820. O filme tem momentos bastante interessantes e especialmente cenas de combate algo brutais e impressionantes, mas o seu fio condutor resulta algo nebuloso. Esta fantasia ‘woke’ pretende agradar a um público contemporâneo, que não está muito interessado na realidade do Daomé dos inícios dos século XIX, que era um dos países mais ricos e prósperos da região, exactamente devido ao tráfico de escravos, mas sim na celebração de uma causa que revê o passado através da ideologia de hoje. Manuel C. Costa

Título original: The Woman King Realização: Gina Prince-Bythewood Elenco: Viola Davis, Thuso Mbedu, Lashana Lynch, Sheila Atim, John Boyega Duração: 135 min. EUA, 2022

https://www.youtube.com/watch?t=1&v=94HxJ3ms8TU&feature=emb_imp_woyt
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