A MINHA FAMÍLIA AFEGÃ

A MINHA FAMÍLIA AFEGÃ

As coincidências parecem formar uma qualquer tipo de tese, uma via … nesse sentido perguntei, aquando a sua passagem em Lisboa, à realizadora de «A Minha Família Afegã», Michaela Pavlátová (do oscarizado «Reci, reci, reci …») sobre a tendência de chegarmos ao Afeganistão pelo atalho da animação. Contabilizei «A Ganha-Pão» dos estúdios Cartoon Saloon, «Flee – A Fuga» de Jonas Poher Rasmussen, ou o premonitório «As Andorinhas de Cabul» de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, agora, «A Minha Família Afegã» junta-se à fornalha, apresentando-nos um “olhar estrangeiro” como ponto de partida. Uma mulher europeia “caída” na armadilha do exotismo magnético do seu marido, acaba por migrar ao Afeganistão e adota uma vida por baixo de hijab e das conturbações sociopolíticas que o país lida. Há nesta passagem de primaveras um efeito de abstrato, ao ponto que a nossa protagonista depara-se com uma faceta até então desconhecida do seu companheiro, o anterior Romeu agora distorcido a um peão do islamismo entranhado e ultra-ortodoxo. Baseado no livro de “Frista” de Petra Procházková, «A Minha Família Afegã» é a persistência como o retrato possível de um país que tem se tornado interdito ao olhar ocidental e de tudo ao seu redor. Um outro planeta, aqui induzido num drama de resiliência de uma mulher que se vê encurralada nestes cercos e abraços sociais efémeros. Contudo, a denúncia, que se poderia esperar, principalmente num previsível panfleto de luta armado ou acirrada pelo direito das mulheres, é amenizada pela empatia da realizadora nas suas personagens masculinas, retratando-os como igualmente vítimas de um sistema opressor e moedor de carne, convertendo-os em peões da sua fé radicalizada. São aspectos que o erigem para algo mais do que “bonecos” ou da urgência da sua visualização, é um filme de cautelas sociais, e sobretudo que não procura soluções nem moralidades únicas, reverte a favor de uma compreensão acima de tudo. Porque «A Minha Família Afegã» parte da perspectiva estrangeira e é dela que fica, nunca a confundindo com uma perspectiva única.

Título original: Moje slunce Mad Realização: Michaela Pavlátová Elenco (vozes): Zuzana Stivínová, Shahid Maqsoodi, Shamla Maqsoodi Duração: 95 min. República Checa/França/Eslováquia