Com a expectativa de umas eleições presidenciais (em abril de 2027) que poderão mudar toda a cena política francesa, também a cultura está presente nos debates e polémicas que acompanham o seu multifacetado processo eleitoral. Incluindo o cinema como tema tanto mais significativo quanto há forças conservadoras apostadas em pôr em causa o papel determinante (entenda-se: muito positivo) que tem sido desempenhado por entidades como o CNC (Centre National du Cinéma et de l’Image Animée) e o Canal +.
Sintoma curioso, algo irónico, a ter em conta: durante o Festival de Cannes, em muitas sessões, o aparecimento do logotipo do Canal + no começo dos filmes foi recebido por um misto de palmas e apupos. Ficou, aliás, a sensação de que mesmo os apupos tinham por alvo, não o canal, mas aqueles que querem pôr em causa o papel financeiro e artístico de uma acção fundamental em várias décadas da produção francesa.
Sejamos claros: não faz sentido tratar o Canal + como se fosse uma solução milagrosa para a consistência de uma qualquer produção cinematográfica — em Portugal, por exemplo, a estagnação de ideias políticas nesse domínio torna mesmo impensável qualquer estratégia que pretenda “saltar” directamente para um modelo do mesmo género. Uma coisa é certa: se não existissem os investimentos do Canal + no cinema francês, este seria muito mais limitado, não apenas nos recursos à sua disposição, mas também (eu diria mesmo sobretudo) na afirmação de diversidade que é uma das suas mais fortes, e também mais importantes, imagens de marca.
Sublinhemos, por isso, a lógica ideológica que, para lá de todas as críticas que possam ser formuladas, preside à filosofia e à prática do Canal +. Assim, a sua existência começa por incluir a ideia segundo a qual, além de não serem territórios estanques, televisão e cinema podem (e devem) coabitar numa dinâmica financeira que, em última instância, beneficia ambos os sectores. Mais do que isso: o Canal + não é apenas um “banco” disponível para financiar filmes, mas também um ecrã de difusão que os acolhe e valoriza.
Numa conjuntura global de evidente crise de consumo do cinema nas salas — crise agravada ou, pelo menos, acompanhada pelo crescimento exponencial das plataformas de “streaming” —, o Canal + surge, mais do que nunca, como um fenómeno de resistência à diluição daquele consumo num mero jogo de algoritmos. O seu destino, a capacidade de garantir o seu destino, terá, por isso, consequências práticas e simbólicas que, em termos geográficos e culturais, excederão os limites das fronteiras francesas.



