O fenómeno “Backrooms” nasceu em 2019, quando a imagem de um escritório vazio, iluminado por luzes fluorescentes e coberto por uma alcatifa amarela, foi publicada num fórum online acompanhada da ideia de que seria possível “sair da realidade” e acabar preso naquele espaço infinito. Esta premissa capturou a imaginação colectiva, dando origem a um rol infindável de histórias, teorias, ilustrações, jogos e vídeos.
O conceito evoluiu de forma orgânica e transformou-se num vasto universo colaborativo, com múltiplos níveis, criaturas e interpretações, tornando-se num dos exemplos mais bem-sucedidos da forma como a internet moderna consegue criar mitologias inteiramente novas. Uma única imagem transformou-se numa espécie de folclore digital do século XXI, simultaneamente colectivo, mutável e impossível de controlar.
Mais tarde, em 2022, um jovem de 16 anos chamado Kane Parsons tornou-se figura de culto na internet ao abraçar o fenómeno e realizar uma série de curtas-metragens para o YouTube. Parsons adaptou o conceito original e aproximou-o de numa narrativa mais cinematográfica, encaixando-o entre o terror e a ficção-científica. O sucesso destes vídeos chamou a atenção de Hollywood e é assim que surge o filme «Backrooms — O Labirinto».
A história de «Backrooms — O Labirinto» começa quando Clark, um arquitecto mal-sucedido resignado a dono de uma loja de mobília, encontra na cave do seu armazém uma passagem para um espaço fora desta realidade. Quando este desaparece, a sua terapeuta, Mary, parte à sua procura e acaba ela própria perdida nesse mesmo espaço labiríntico que subverte a lógica e a natureza da realidade tal como a conhecemos.

O estúdio A24 acreditou que Kane Parsons, agora com (apenas) 21 anos, tinha o que era preciso para realizar o filme e a confiança depositada deu lucros. A realização segura é fruto não só da compreensão do que torna este universo tão perturbador por si só, mas também da interpretação pessoal de Parsons que o levou a criar a série de filmes para o YouTube. É, por natureza, uma interpretação subjectiva, mas é a sua visão e funciona.
A direcção artística e a fotografia são igualmente dignas de registo por conseguirem transformar espaços aparentemente banais em lugares capazes de provocar desconforto a vários níveis. Em paralelo, as interpretações também contribuem para esse efeito. O elenco evita excessos e compreende que o verdadeiro protagonista da história não é qualquer personagem em particular, mas sim o próprio espaço.
Onde «Backrooms — O Labirinto» revela algumas fragilidades é no argumento. Não que seja mau, mas parece carregar o peso de um conceito demasiado vasto para ser dominado. As “Backrooms” existem na internet como uma tela em branco colectiva, alimentada pelos seus utilizadores. As “Backrooms” são tudo o que se quiser que sejam e, ao mesmo tempo, são absolutamente nada, uma simples fotografia sem significado.
«Backrooms — O Labirinto» não é um filme perfeito. O argumento nem sempre consegue acompanhar a força das ideias que o inspiram e oscila entre o desejo de preservar o mistério e a necessidade de oferecer respostas. Existem momentos em que a narrativa parece avançar com segurança e outros em que dá a sensação de estar, tal como as personagens, à procura de uma saída num corredor que se multiplica a cada esquina.
Mas a realização, os ambientes e a capacidade de capturar uma sensação genuína de estranheza fazem dele uma experiência memorável. Considerando o material de origem, seria difícil pedir algo mais apropriado. Talvez o mais interessante até nem seja aquilo que o filme explica, mas aquilo que não consegue explicar. Volta-se ao início de tudo e dá-se ao utilizador o poder criativo para inventar e preencher os espaços como bem entender.
Título: Backrooms — O Labirinto
Título original: Backrooms
Realização: Kane Parsons
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass
Duração: 110 min.
País: EUA
Ano: 2026
Photo by Courtesy of A24 – © A24




