A saga que fez do pneu queimado uma religião terá de enfrentar o seu maior vilão: a tomada eléctrica, a autonomia da bateria e a ansiedade de chegar ao próximo carregador rápido.
Há uma pergunta que paira sobre o futuro do cinema de acção, sobre Hollywood, sobre a masculinidade motorizada e talvez mesmo sobre o destino da civilização ocidental: o que será de “Velocidade Furiosa” quando os carros eléctricos chegarem de vez? Não estou a falar dos eléctricos simpáticos ou de híbridos que passam em silêncio nas avenidas das cidades, com condutores de ar muito cool e ecológico, garrafas reutilizáveis no banco de trás e uma aplicação no telemóvel para medir a pegada carbónica. Falo do dia em que Dominic Toretto (Vin Diesel) tiver de olhar para a sua equipa, pousar a mão no capot de um automóvel que não faz barulho nenhum, e dizer, com a gravidade de um patriarca bíblico encurralado numa zona de baixas emissões: “Família… temos 18% de bateria.”
Uma tragédia grega com bluetooth.
Durante mais de vinte anos, a saga “Velocidade Furiosa” viveu de uma liturgia muito simples: motores a rugir, pneus a arder, homens a resolver traumas emocionais no acelerador, mulheres a entrar em curva com mais inteligência do que os argumentos, explosões, amnésias, ressurreições, aviões, submarinos, satélites, pontes, cofres arrastados pelo Rio de Janeiro, carros lançados de edifícios, carros lançados de aviões, carros quase lançados contra a lógica e, no cúmulo da ambição metafísica, carros no espaço, como se a NASA fosse uma oficina de bairro com orçamento da Universal.
E agora? Agora chega o carro eléctrico. Sem rugido. Sem vibração. Sem óleo. Sem aquele cheiro a gasolina que, nos filmes da saga, parecia uma espécie de incenso para santos musculados. Um veículo eléctrico, como se sabe, é alimentado por energia armazenada em baterias e propulsionado por um motor eléctrico. Tem menos partes móveis, menos mecânica, menos necessidade de manutenção. Ou seja, é tudo aquilo que Dominic Toretto não sabe como abraçar sem sentir que está a trair os antepassados da garagem.
Porque Toretto não é apenas um homem. É uma oficina com bíceps. É um barbecue com carta de condução. É uma filosofia política em camiseta justa. A sua relação com o carro nunca foi meramente funcional. Dom não conduz: comunga. Não acelera: confessa-se. Não muda de velocidade: invoca os mortos, os irmãos, os traidores perdoados, os filhos escondidos, os cunhados adoptivos e todas as personagens que a saga foi ressuscitando com a ligeireza com que outros mudam pneus. Imaginar este homem ao volante de um carro eléctrico é como imaginar o Papa a celebrar missa numa trotineta urbana.
E, no entanto, esse dia há-de chegar. Hollywood pode atrasar muita coisa, mas não consegue travar eternamente a transição energética, sobretudo quando ela traz possibilidades de patrocínio, novas linhas de brinquedos, campanhas de sustentabilidade e um Vin Diesel a dizer, com ar solene: “Não importa o que tens debaixo do capot. Importa quem está contigo no carregador.” A família, naturalmente.
A família e a autonomia restante
A saga começou em 2001 com “Velocidade Furiosa”, um thriller barato, nocturno, oleoso, com Paul Walker infiltrado entre corredores ilegais de Los Angeles e Vin Diesel a inventar Dominic Toretto como se estivesse a fundar uma religião de garagem. Depois vieram “+ Velozes + Furiosos”, “Velocidade Furiosa: Desafio em Tóquio”, “Velocidade Furiosa 4”, “Velocidade Furiosa 5”, “Velocidade Furiosa 6”, “Velocidade Furiosa 7”, “Velocidade Furiosa 8”, “Hobbs & Shaw”, “Velocidade Furiosa 9” e “Velocidade Furiosa X”. Onze filmes e spin-offs, portanto, ou doze mandamentos se contarmos com o mandamento invisível: nunca deixarás uma personagem morta se ela ainda puder render no mercado asiático.
A ordem cronológica da saga já é, por si só, mais complicada do que certas sucessões monárquicas europeias. Um filme estreou antes mas acontece depois; uma personagem morre, regressa, afinal não morreu, ou morreu mas estava só ausente da narrativa por razões de agenda, de contrato ou de bilheteira; inimigos viram cunhados; vilões tornam-se aliados; traidores passam a primos espirituais; e tudo acaba inevitavelmente num encontro de família com carne grelhada, cerveja, sorrisos tristes e aquela sensação de que ninguém paga IMI naquela casa.
Agora imaginemos esta mitologia aplicada ao carro eléctrico. O churrasco final continuaria, claro. Mas talvez com grelhador sustentável, painéis solares no telhado e Roman Pearce a fazer piadas sobre a factura da luz. Tej, esse génio tecnológico da equipa, deixaria de hackear satélites russos e passaria meia hora a explicar a Dom a diferença entre carregamento lento, carregamento rápido e carregamento ultra-rápido. Letty, naturalmente, perceberia tudo em três segundos e salvaria a situação enquanto os homens discutiam adaptadores.
O grande suspense já não seria saber se a equipa consegue atravessar uma ponte em colapso, escapar a um submarino nuclear ou roubar uma ogiva antes do pequeno-almoço. Seria saber se o carro chega ao destino com bateria suficiente. A nova tensão dramática do franchise poderia ser esta: Dom, Letty e a equipa perseguem um vilão internacional num silêncio quase zen, quando o painel acende a mensagem fatal: “Autonomia restante: 12 km.” Nunca a expressão “viver a vida um quarto de milha de cada vez” teria parecido tão ecológica e tão aterradora.
O vilão mais perigoso: a aplicação que não funciona
A saga sempre teve grandes vilões: traficantes, mercenários, ciberterroristas, irmãos ressentidos, Jason Momoa em modo carnaval homicida, Charlize Theron com penteados que pareciam ameaças geopolíticas. Mas nenhum deles se compara ao verdadeiro inimigo do futuro: a aplicação do carregador eléctrico que não reconhece o cartão.
Aí, sim, teríamos cinema de suspense. Dom chega a uma estação de serviço abandonada às três da manhã, depois de atravessar meia Europa perseguido por drones, tanques e um antigo primo de terceiro grau que afinal trabalha para uma organização secreta. Precisa de carregar o carro em oito minutos para impedir o fim do mundo. Encosta. Sai. Olha para a máquina. A máquina pede login. Dom não tem login. Roman esqueceu-se da password. Tej diz que o sistema está em manutenção. Ramsey tenta fazer bypass à rede, mas é bloqueada por um captcha. Letty dá um murro no carregador. O carregador continua impassível, porque os carregadores eléctricos têm aquela superioridade moral de funcionário público alemão.
E então Dom percebe: durante vinte anos derrotou governos, máfias, satélites e leis da física, mas nunca se preparou para o verdadeiro apocalipse contemporâneo — a burocracia digital.
É aqui que “Velocidade Furiosa” pode encontrar o seu novo fôlego. Ou a sua nova tomada. O cinema de acção do futuro talvez já não precise apenas de explosões. Precisa de ansiedade energética, dependência tecnológica, mobilidade limpa e personagens musculadas a discutir termos e condições. Imaginem Vin Diesel a aceitar cookies com o maxilar cerrado. Imaginem Jason Statham a tentar pagar por aproximação. Imaginem Dwayne Johnson a levantar um posto de carregamento inteiro e a dizer: “Agora carrega.”
A beleza do absurdo está toda aqui. A saga sempre viveu de exagerar o presente até ele se tornar mitologia. Começou nos rachas urbanos, passou pelos assaltos, entrou na espionagem global, abraçou a ficção científica involuntária e acabou a namorar com o espaço. Se quiser sobreviver aos próximos anos, terá de transformar o carro eléctrico não num problema, mas num novo delírio. Não basta Dom conduzir um eléctrico. É preciso que o eléctrico atravesse um glaciar, salte de Lisboa para Marrocos, carregue a bateria com relâmpagos e tenha modo “família” no painel de bordo.
Silêncio eléctrico, trauma barulhento
Há, no entanto, um problema estético sério. O motor eléctrico não ruge. E sem rugido, o que acontece à masculinidade de “Velocidade Furiosa”? Durante décadas, o som do motor foi a voz interior destas personagens. Quando Dom não conseguia dizer que estava magoado, acelerava. Quando Brian não sabia se era polícia ou irmão, acelerava. Quando Letty queria mostrar que ninguém mandava nela, acelerava melhor do que todos. O motor era terapia, confissão, erotismo, ameaça e banda sonora.
Num eléctrico, tudo muda. O carro arranca com uma suavidade quase ofensiva. Não há explosão, há eficiência. Não há grito, há zumbido. Não há fumo, há actualização de software. E uma saga que fez do excesso a sua gramática terá de aprender a lidar com o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro drama: não salvar o planeta, mas salvar o melodrama do acelerador.
Mas, pensando bem, “Velocidade Furiosa” sempre foi uma saga mais sentimental do que mecânica. Nunca acreditámos verdadeiramente nos carros. Acreditámos nos corpos dentro deles, nas amizades improváveis, nos mortos que continuavam presentes, na ideia infantil e comovente de que ninguém fica para trás se houver uma equipa, uma mesa, uma cerveja e um plano completamente estúpido. A gasolina foi o perfume. O motor foi o instrumento. Mas o combustível verdadeiro foi sempre outro: a lealdade.
É por isso que a transição eléctrica talvez não mate a saga. Pode até rejuvenescê-la, desde que Hollywood não a transforme numa campanha de responsabilidade ambiental com músculos. O perigo não está nos carros eléctricos. Está na moralina. Está em Dom Toretto passar de fora-da-lei motorizado a embaixador da mobilidade sustentável, com frases como “a verdadeira velocidade é respeitar o planeta”. Aí, sim, seria o fim. Não por causa das baterias, mas por causa da vergonha alheia.
A última corrida será até ao carregador
O futuro ideal de “Velocidade Furiosa” talvez esteja algures entre o ridículo e a lucidez. Um filme em que Dom tenha de aceitar que o mundo mudou, mas sem deixar de ser Dom. Em que Letty conduza um eléctrico como se estivesse a esbofetear o patriarcado e o regulamento europeu das emissões. Em que Roman passe o filme inteiro a desconfiar de carros que não fazem barulho. Em que Tej explique que o binário instantâneo dos motores eléctricos permite arrancar mais depressa do que muitos carros a combustão, e Dom responda apenas: “Mas faz churrasco?”
E, no fim, claro, a mesa. Porque há coisas que nem a electrificação consegue destruir. A equipa reunida, o sol a pôr-se, um copo levantado em memória de Brian, talvez um carro silencioso ao fundo, ligado a uma tomada, como um animal doméstico a descansar depois de salvar o mundo. Dom olha para todos, respira fundo e diz qualquer coisa sobre família, porque se não disser a Universal perde valor em bolsa.
Talvez seja esse o destino da saga: trocar a gasolina pela electricidade, o rugido pelo zumbido, o óleo pela bateria, mas manter intacta a sua fé absurda na lealdade, no disparate e na convicção de que qualquer problema emocional pode ser resolvido com uma perseguição de vinte minutos.
Quando os carros eléctricos chegarem de vez, “Velocidade Furiosa” não acabará. Apenas terá de aprender a carregar antes de fugir.
E convenhamos: depois de carros no espaço, submarinos nucleares, irmãos secretos, vilões ressuscitados e cofres arrastados pelas ruas do Rio, perseguições nas ruas da Baixa de Lisboa, acreditar que Dominic Toretto consegue encontrar um posto de carregamento livre na auto-estrada talvez seja, finalmente, a coisa mais inverosímil que a saga alguma vez tentou vender-nos.



