Um padre que não organiza o caos, relações que não se reorganizam e decisões que não se corrigem: «Big Mistakes», da Netflix, constrói-se a partir da repetição dos erros. Surge como o primeiro grande projeto televisivo de Dan Levy após «Schitt’s Creek».
Em «Big Mistakes», série da Netflix, a narrativa parte de decisões com impacto direto na vida pessoal e profissional das personagens, acompanhando o seu prolongamento no tempo. No centro está um padre, Nicky (Dan Levy), que, juntamente com a irmã – Morgan (Taylor Ortega) –, se envolve no roubo de um colar, incidente que desencadeia as dinâmicas da série. A partir daí, as consequências desse gesto passam a marcar diretamente as relações mais próximas, gerando conflitos que se prolongam sem resolução clara. Nicky, longe de funcionar como elemento de equilíbrio, integra-se nesse mesmo padrão, contribuindo para a continuidade das tensões. Em vez de corrigirem o percurso, as decisões seguintes tendem a agravá-lo, mantendo o conflito ativo.
A condição de Nicky enquanto padre cria um desfasamento imediato entre função e comportamento, ao colocar uma figura de orientação moral num conjunto de ações que não estabilizam o que o rodeia. A sua presença não reorganiza as relações nem contém o conflito; pelo contrário, integra-se nas dinâmicas que o alimentam. Este desalinhamento não surge como exceção nem como crise momentânea, mas como parte do funcionamento da personagem, esvaziando progressivamente o peso da sua função. A autoridade associada ao papel existe, mas não produz efeito: permanece como referência, não como ação.
A partir deste ponto, a série oscila entre observar esse desfasamento e repeti-lo. As situações reforçam o padrão de comportamento, mas nem sempre o expandem, o que faz com que a progressão dependa mais da acumulação do que da variação. O conflito mantém-se ativo, mas raramente se transforma, e essa insistência acaba por afetar o ritmo, aproximando-o de uma continuidade sem verdadeiro desenvolvimento.

Essa abordagem desloca o peso da série para um humor assente sobretudo na situação e no comportamento, mais do que na construção de variação narrativa. A comédia surge muitas vezes do encadeamento de acontecimentos e das reações das personagens, com recurso a um registo físico e de contexto relativamente direto. Apesar de introduzir alguma complexidade nas relações e nos conflitos, a série mantém uma progressão linear, sem se tornar difícil de acompanhar, o que reforça a sua acessibilidade, mas limita a capacidade de aprofundamento.
Nesse contexto, o luto surge como um dos poucos momentos de aparente rutura, funcionando mais como escape do que como transformação. A carga emocional introduz uma pausa, mas não altera a direção do comportamento, integrando-se rapidamente no mesmo padrão. A série aproxima-se assim de uma linearidade emocional apenas aparente, onde a exposição não se traduz em mudança efetiva.
Este posicionamento marca também um afastamento de «Schitt’s Creek», onde Dan Levy – e Eugene Levy – construiu uma trajetória assente na evolução das personagens e na transformação das relações. Em «Big Mistakes», essa lógica é substituída por um modelo em que o reconhecimento dos comportamentos não conduz a mudança, mas à sua repetição, esvaziando a ideia de progressão e deslocando o foco para a persistência do erro. Mais do que um ponto de rutura, o erro torna-se um estado contínuo, definindo comportamento, relações e direção narrativa.
No fim, «Big Mistakes» mantém uma coerência clara na forma como constrói as suas personagens e dinâmicas, mesmo quando opta por uma progressão mais contida. A insistência nesse registo pode limitar a variação, mas reforça a consistência do olhar sobre comportamentos que não se resolvem com facilidade.
Destaque para a presença, no elenco, de nomes como Laurie Metcalf, Jack Innanen, Boran Kuzum, Elizabeth Perkins, Jacob Gutierrez e Abby Quinn.



