Hildur Guðnadóttir parece estar definitivamente a alargar o seu espectro sonoro. A talentosíssima compositora islandesa, vencedora do Óscar por «Joker» (2019), é conhecida pelo cunho opressivo que imprime nas suas bandas sonoras, recorrendo para esse efeito, regra geral, ao naipe das cordas graves da orquestra. Depois da sua fabulosa partitura jazzística para «Hedda» (2025), única obra, aliás, assinada o ano passado por Guðnadóttir, música que despertava a sua veia melódica e que nos envolvia numa atmosfera melancólica inebriante, a compositora surpreende-nos agora com «A Noiva!», a mais recente e arrojada visão cinematográfica de Maggie Gyllenhaal da obra literária original de Mary Shelley. Num momento inicial o inglês Jonny Greenwood estava na linha da frente para assumir a composição musical da fita, mas acabaria por abandonar o projeto.
Esta sua partitura combina a sonoridade de uma orquestra clássica com o estilo punk rock, apimentada com traçados eletrónicos. Guðnadóttir trabalha em conjunto com três guitarristas de excelência: Amedeo Pace dos Blonde Redhead, Lee Ranaldo, co-fundador dos Sonic Youth e Tóti Guǒnason, irmão da compositora. Embora a música sirva como o principal agente de transmissão de tensão ao longo do filme, há um capital tema de amor para Frank (Christian Bale) e a Noiva (Jessie Buckley) que vai apresentando diferentes cambiantes à medida que o romance se vai desenlaçando. No álbum, este tema volátil surge bem definido em quatro breves faixas, Love Theme #1/You Have an Amazing Vocabulary, Love Theme #2/I Don’t Know Where I Live, Love Theme #3/I Can’t Remember My Name e Love Theme #4/Someone Oughta Cut Your Fucking Tongue Out. O disco não se cinge unicamente aos sons de Guðnadóttir. Wrong Flower (Cinematic), The Lake (Cinematic) e Wanna Sip são as três canções originais de Fever Ray (aka Karin Dreijer), renomada e extravagante artista que assenta na perfeição com a estética requerida. Jake Gyllenhaal exibe os seus dotes vocais (sem impressionar por aí além) como Ronnie Reed, o ídolo de Frank numa coleção de seis standards de figuras como George Gershwin, Ira Gershwin ou Irving Berlin apoiado pelo saxofonista Vince Giordano e os Nighthawks (I’ve Got a Feeling I’m Falling, Cooking Breakfast for the One I Love, Things Are Looking Up, My Sin, I Have to Have You, Ain’tcha). Uma BSO (partitura e canções) plurifacetada que é, como se vê, e tal como o filme, uma fusão de diferentes géneros e tons, pot-pourri desconcertante que ficará certamente marcado como um dos títulos mais singulares de 2026.



