Última Edição

Novidades

“My Way — A História de Uma Canção” | A piscina, Sinatra, Alvalade e o Sporting a cantar à sua maneira

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

O magnífico documentário “My Way — A História de uma Canção” estreou em Portugal numa altura particularmente deliciosa para quem aprecia coincidências: precisamente quando o Sporting decidiu transformar final da Liga Portuguesa numa mistura de ansiedade, liturgia e sofrimento decorativo. E a verdade é que poucas canções explicam tão bem a vaidade, o drama, a fé e o auto-engano como esta. Ainda por cima, em Alvalade, onde “My Way” ganhou uma das suas várias vidas como “O Mundo Sabe Que”, cantada antes dos jogos como se fosse oração civil, acto de amor e terapia colectiva de cachecol ao alto. Deixemos por agora o drama sportinguista.

Na vida há muitas revelações que não mudam a História, mas abalam a mobília emocional de uma pessoa, sobretudo neste caso de um adepto. Porém esta revelação mostrada em “My Way — A História de uma Canção”, de Thierry Teston e Liza Azuelos, que não podem perder nas salas de cinema, será certamente uma delas: a canção mais americana do mundo afinal, nasceu na França, à beira de uma piscina, numa mansão nos arredores de Paris, em 1967. Não em Las Vegas, não entre copos e charutos num camarim de Frank Sinatra, não em Nova Iorque com homens de chapéu a falarem alto. Nasceu com o título de “Comme d’habitude”, escrita e cantada pelo famoso cantor pop da altura, Claude François e musicada pelo compositor Jacques Revaux, antes de Paul Anka lhe pegar, lhe mudar a língua, a postura e a biografia, e a entregar a Sinatra o material ideal para ele fazer aquilo que fazia melhor: transformar uma canção num monumento à sua própria lenda. O documentário de Thierry Teston e Lisa Azuelos parte precisamente desta ironia maravilhosa e trata “My Way” não como um simples êxito, mas como uma criatura pop mutante, uma música com várias vidas, várias máscaras e um talento raro para sobreviver a tudo, até ao excesso de fama.

O grande trunfo do filme é perceber que por detrás da familiaridade da música há uma história muito mais estranha e divertida do que se pensava. Toda a gente acha que sabe o que é “My Way”: Sinatra, orquestra, dramatismo, karaoke de casamentos, funerais e tios emocionados ao jantar, depois de um copo a mais. Mas o documentário mostra que a canção foi ganhando significados completamente diferentes consoante quem a cantava e em que altura do mundo aparecia. Com Sinatra, tornou-se o hino definitivo do homem que olha para os estragos que fez e, com voz grave e arranjo luxuoso, consegue que tudo pareça elegância. Com Nina Simone, mudou de eixo e de alma. Com Sid Vicious dos Sex Pistols, levou uma chapada punk. Com Nina Hagen, ganhou outro peso político com a Queda do Muro de Berlim. Ou seja: a mesma canção foi servindo para a vaidade, para a dor, para a provocação, para a memória, para a história e para o espectáculo. Poucas músicas carregaram tanta coisa sem rebentar pelas costuras.

É isso que faz de “My Way — A História de uma Canção” um documentário tão inteligente, tão divertido e tão culto. Thierry Teston percebeu, como ele próprio admitiu, que estava ali não apenas uma canção, mas uma pequena autobiografia do Ocidente, ou pelo menos da sua vaidade organizada. “My Way” é ao mesmo tempo sublime e um bocadinho ridícula. É comovente e narcísica. É uma obra séria e uma paródia pronta a usar. Aguenta tudo porque tem no centro uma promessa humana muito simples: a de que a vida pode ser narrada de forma mais bonita, mais nobre e mais afinada do que realmente foi.

A narração de Jane Fonda ajuda muito a esse jogo. Dá à canção uma espécie de consciência própria, como se estivéssemos a ouvir a própria música comentar as voltas que a vida lhe deu. E o elenco de participações — de Paul Anka a Janelle Monáe, de Ben Harper a Gabriel Yared, passando pelos Sparks e até Sydney Sweeney — reforça essa ideia de que “My Way” já deixou há muito de pertencer apenas à música. Hoje pertence ao imaginário global, ao comércio da nostalgia, à circulação internacional dos símbolos e àquela estranha indústria que transforma tudo o que toca em património emocional reciclável. Até Sydney Sweeney, que aparece também por associação ao perfume “My Way” da Armani, ajuda a provar que esta canção já não é apenas canção: é marca, atmosfera, pose, memória e reflexo pop de um século inteiro.

E depois voltamos ao Estádio de Alvalade, claro, porque a pop tem esta mania extraordinária de acabar sempre onde menos se espera. Em Lisboa, “My Way” foi reaproveitada como “O Mundo Sabe Que” e tornou-se um dos momentos mais emocionais da liturgia sportinguista. Antes do jogo, o estádio canta aquilo em coro, de cachecóis no ar, como se fosse preciso ouvir a própria voz colectiva para acreditar que ainda há salvação. É um momento belíssimo, exagerado e ligeiramente cómico, como são quase todas as grandes manifestações de fé popular. De repente, a canção deixa de ser o monólogo final de um homem sobre a sua biografia e transforma-se num plural: já não é “fiz tudo à minha maneira”, é “continuamos aqui, doentes por ti, aconteça o que acontecer”. A balada de um ego vira hino comunitário. A pop transforma-se em religião portátil. E o futebol agradece.

O detalhe mais saboroso é o timing. O Sporting anda neste momento a fazer da classificação um género de peça experimental sobre esperança, desilusão e nervos em franja. A equipa complicou a vida e a luta pelos lugares cimeiros tornou-se mais apertada, o que torna ainda mais comovente — e um pouco trágico-cómico — ver Alvalade a cantar “O Mundo Sabe Que” com a solenidade de quem vai conquistar o mundo, quando a tabela sugere que o mundo, para já, está a olhar mais para o lado. Há qualquer coisa de profundamente sportinguista nisto: transformar cada jornada num romance psicológico, cada empate num debate metafísico e cada hipótese matemática numa forma refinada de sofrimento. Quando não pode ganhar com tranquilidade, o Sporting sofre com estilo, de tuxedo e laço. Também isso, convenhamos, é uma forma muito própria de fazer as coisas, com fineza

É precisamente por causa de tudo isto que o documentário funciona tão bem. Porque percebe que certas canções não sobrevivem apesar das contradições, mas graças a elas. “My Way” aguentou Sinatra, Nina Simone, o punk, o kitsch, a política, o karaoke, os funerais, a publicidade, Sydney Sweeney por tabela e até a fé sportinguista em estado coral e às as vezes em queda. Poucas músicas viajaram tanto sem perder a capacidade de parecer inevitáveis em qualquer sítio onde soem. Da piscina de Claude François ao Estádio de Alvalade, esta canção fez um percurso que nenhum argumentista sensato ousaria apresentar sem medo de ser gozado.

No fundo, “My Way — A História de uma Canção” diz-nos uma coisa muito simples: ninguém resiste à tentação de transformar a própria vida numa narrativa maior, mais bonita e mais afinada do que os factos. Sinatra fez isso. O Sporting faz isso. Nós todos fazemos isso. A diferença é que Sinatra tinha uma orquestra, Jane Fonda agora ajuda a explicar a lenda, e em Alvalade há sempre um cachecol pronto para fingir que ainda vai correr tudo bem. E vai mas para o ano. Essa talvez seja a definição mais exacta de fé popular. Ou de futebol. Ou quando as duas coisas se juntam à mesma melodia.

Artigos Relacionados