Vencida pelo triste (mas prospectivo) «Pequenas Criaturas», de Anne Pinheiro Guimarães, a 27ª edição da Première Brasil do Festival do Rio conheceu seu personagem mais complexo num épico sobre a danação: o tenente Macedo, vivido pelo ator Caco Cicoler nas raias do esplendor. Ele prenuncia as trevas de nossa pátria em «A Vida de Cada Um», novo filme de Murilo Salles.
Há 30 anos, o cineasta – uma grife de excelência no trabalho como diretor de fotografia, que carrega «Dona Flor e Seus Dois Maridos» no currículo de títulos que iluminou – radiografou a desconexão entre “asfalto” e “favela” em «Como Nascem Os Anjos» (1996), um filme de alerta. À época, em meio a confrontos entre a Polícia Militar (PM) e o tráfico por todo o Rio, com o agravamento das cizânias no Complexo do Alemão após o assassinato do chefe do crime Orlando Jogador (1959-1994), Murilo mostrou que os dispositivos de controle da aristocracia da Zona Sul de sua terra (onde há praias) não captavam o que havia de demasiadamente humano a seu redor. Em «A Vida de Cada Um», o que está em pauta é a reorganização de nossa geografia pelas células milicianas (máfias de farda), partindo de datas limítrofes. Em seu enredo, digo de «O Poderoso Chefão» (1972) em sua forma de inventariar a delinquência sob um prisma de clã, estão 1994 (ano do tetra na Copa do Mundo e do início do império do traficante Uê na Zona Norte); 2014 (ano da implementação do Bus Rapid Train e do 7 x 1 para a Alemanha); e 2016 (o Golpe, com direito a resgate da votação do Impeachment). A era Jair Bolsonaro foi chocada ali, quando o regime de governo do Brasil deixou de ser presidencialista e virou… miliciano.
É do Morro do Andaraí que esse panótico, editado como um quebra-cabeça de encaixe pleno pela montadora Eva Randolph, desenha-se na tela. Macedo é o Don Corleone desse mundo e Caco Ciocler, colossal, faz dele um ferrabrás que tem seu lado manteiga, com o tique de mexer as pedras de gelo de seu uísque com os dedos.
Autoridade fardada, ele botou a mulher para fora de casa a tapas, criou os dois filhos no garrote, impôs disciplina à sua vizinhança e ocupou espaços que antes era baldios. Só não implementou uma UPP no coração de sua filha, Flávia, o papel mais denso já oferecido à atriz Bianca Comparato na telona – e compensado com um primor de atuação.
Vemos Flávia em diferentes fases de sua vida, enquanto ela e seu irmão testemunham Macedo chegando do plantão e brandando regras. Vai ser assim sempre, nas três décadas que se seguem até Flávia, sem grana, resolver se lançar no comércio da cocaína e desafiar a vontade de um pai que nunca perdoou.
Laços de família se lavam a sangue nessa narrativa, que se impõe pela geometria euclidiana de sua montagem e pela natureza de Comédia Humana (à la Balzac) de sua fauna de personagens. No entanto, o que mais (e melhor) impressiona é o fato de Murilo ter feito um “filme de máfia”, pois se trata de um “Goodfellas” no Andaraí, com Ciocler em devir Robert De Niro.




