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Três Amigas

Na filmografia de Emmanuel Mouret, realizador que tem trabalhado os modelos românticos com particular subtileza, «Três Amigas» surge imbuído de uma disposição outonal, suscetível de fortalecer a impressão de um cinema chegado à maturidade. Não é propriamente de agora – note-se que «As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos» (2020) já anunciava um passo em frente na sofisticação narrativa de Mouret –, mas, para sermos precisos, este novo filme reveste-se de uma tonalidade melodramática capaz de quase fazer esquecer as propriedades da comédia romântica que o define.

Exemplarmente estruturado, «Três Amigas» faz mesmo do ato da narração um elemento de filigrana sentimental: em voz off, o habitué Vincent Macaigne começa por ambientar-nos na cidade de Lyon, para de seguida apresentar as personagens principais, três amigas que oscilam entre a franqueza e a mentira na gestão diária, mais ou menos inofensiva, das aparências. Desde logo, Joan (India Hair), professora de inglês e esposa do dito narrador, é alguém que, por timidez natural, não encontra maneira de confessar ao marido o seu estado de questionamento amoroso. Já Alice (Camille Cottin) diz-se satisfeita com esse desequilíbrio que também existe na sua relação conjugal, preferindo o conforto de uma boa sintonia doméstica ao desassossego molecular provocado pela paixão. Uma perspetiva diferente, por sua vez, de Rebecca (Sara Forestier), a amiga formada em artes visuais que trabalha num museu e anda a dormir com um tal de “Sr.X”… casado com Alice.

Trata-se então de observar o jogo de “quem ama quem”, a certa altura, a partir de uma tragédia que impõe a entrada de uma nova personagem (seguida de outra, e mais outra), no reconhecimento suave de que as mudanças – incluindo as mudanças de perspetiva – fazem parte da grande equação do amor. Por aí, Emmanuel Mouret ergue um melodrama sinfónico, variável, movido pela consciência amorosa das suas protagonistas e pela delicadeza dos laços que se formam numa zona sentimental de perigo.

É talvez o filme mais terno deste cineasta rohmeriano, que, de resto, discreta e firmemente, molda as emoções a partir do próprio texto em off: a leitura de Macaigne, levada com infinita doçura, acrescenta uma beleza fantasmagórica ao movimento da vida. E até nisso «Três Amigas» consegue oferecer algum elemento de surpresa, sem sobressaltos… A comédia romântica desvanece-se para que sejamos acalentados nos braços de uma leve tristeza.

TÍTULO ORIGINAL: Trois amies REALIZAÇÃO: Emmanuel Mouret ELENCO: India Hair, Camille Cottin, Sara Forestier ORIGEM: França DURAÇÃO: 117 min. ANO: 2024

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