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Crítica Tardes de Solidão – estreia TVCine

«Tardes de Solidão», de Albert Serra, é uma meditação quase silenciosa sobre os temas das rupturas íntimas da alma humana e dos arquétipos do sagrado. Conhecido pelos seus filmes contemplativos e, muitas vezes, de ritmo lento, o trabalho de Serra transcende a estrutura narrativa convencional, oferecendo uma exploração cinematográfica de uma existência primordial, apartada do quotidiano e do ruído do mundo exterior. Este é um filme que foge ao ritmo urgente do cinema moderno e mergulha o espectador num espaço onde o tempo está suspenso, tanto física como mentalmente. Um ritmo que convida à contemplação enquanto desafia as nossas expectativas em relação à narrativa tradicional. Pelo uso do silêncio, do som e de imagens cuidadosamente construídas, o realizador catalão cria uma experiência profunda que vai para além da mera observação. Poderíamos começar por dizer que este é um documentário, próximo do cinema verité, sobre touradas ou sobre o toureiro peruano, menino-prodígio, Andrés Roca Rey, mas estaríamos a acanhar e a apoucar a imensidade do que, com tão pouco, Serra nos conseguiu dar.

A aproximação minimalista ao argumento e à composição visual depurou a história ao que de mais basilar existe: o homem, o animal, a vida, a morte. Há algo de arquetípico no sentido junguiano do termo: algo que faz parte da estrutura universal do inconsciente colectivo. O touro – terrífico e fremente, é o mesmo bovino monstruoso que está pinchado nas grutas de Lascaux e que, há dezassete mil anos, atemorizou os primeiros hominídeos. A sua morte é a do touro primordial sacrificado pelo deus Mithras na eterna luta da ordem contra o caos. Serra traz à tela um duelo primevo que ocorre no domínio do sagrado. A sua abordagem esparsa e minimalista, com um silêncio fragoroso – como se de uma linguagem antiga se tratasse – imbuem as acções aparentemente mundanas com uma profundidade que ressoa para além do quotidiano físico. Mesmo quando um dos colegas toureiros oferece um comum caramelo ao herói todos os gestos ganham uma majestade fora do tempo que se assemelha ao rito da comunhão cristã. As frases que vão sendo pronunciadas (muitas das vezes sem serem destinadas a qualquer ouvinte), os raros e ralos diálogos, a respiração ofegante do matador, os urros e bramidos do touro preenchem todo o espaço e suprem a necessidade de enredo. Neste filme, a sonoplastia toma uma dimensão raramente vista: o som e a imagem parecem se fundir numa experiência sensorial única. A câmara lenta e o uso da luz suave nas imagens são contrastados com sons agudos ou dissonantes em momentos-chave, criando uma tensão entre a inquietação sonora e a calma visual. O ritmo pausado e meticulosamente desenhado da obra, onde cada som — ou a falta dele — é um componente vital da experiência emocional do filme. A sonoplastia de «Tardes de Solidão» pode ser vista, de igual modo, como uma metáfora auditiva para o isolamento e a introspecção. Pela mestria do uso som, o realizador consegue exteriorizar a condição interna dos personagens e solidificar os gestos numa grandeza litúrgica. Podemos dizer que o som torna-se numa linguagem em si mesma. O compositor Marc Verdaguer juntou leves frases a esse texto complexo com músicas que se imiscuem de forma quase indistinta mas segura, fazendo-se acompanhar pela “flexível e maleável” obra de Camille Saint-Saëns. 

Igualmente, os momentos parecem não existir perdidos que estão numa espiral repetida. Do hotel para a carrinha, da carrinha para a arena, da arena para a carrinha, da carrinha para o hotel. Como num oroboro, a acção repete-se sem ter início ou fim: o acto de existir substitui o acto de viver.  Andrés Roca Rey existe, isolado, fora do mundo do dia-a-dia. Mesmo quando acompanhado pela sua quadrilha, o toureiro surge sempre introspectivo, ensimesmado como um semideus que se passeia por entre os mortais e a sua entourage toma o papel do coro das tragédias gregas: não são personagens, antes estão lá meramente para servir, adular, adorar e ecoar o herói. Num quarto do Hotel Mandarin Ritz, de Madrid; ou do Hotel Maison Albar L’Imperador, de Nîmes; ou de qualquer outro Hotel de cinco estrelas;  por entre um luxo discreto e acolhedor, a carapaça exuberante do traje de luces é ritualisticamente montada por um outro toureiro que lhe serve de valet-de-chambre ou de sacristão.Segue-se a procissão íntima, encerrada no casulo de uma carrinha, com os bancos grafados com as iniciais de Andrés e onde a sua presença enche toda a tela, surgindo à sua volta faces sem corpos como os querubins que rodeiam os santos nos quadros barrocos. Por fim a arena: Las Ventas, em Madrid; la Maestranza, em Sevilha; La Vista Alegre, em Bilbau. A terra, o touro e o sangue. A “linha-da-frente da alma” onde o embate mortal toma lugar. A fera fere o homem; o homem mata a besta. A espada entra no touro, no “sítio da sorte”, fazendo-o sucumbir. Um outro vem para a trepanação: o coup-de-grâce. A ordem é reposta e o herói volta à carrinha e ao quarto de hotel. O ciclo repete-se ad aeternum. O filme não tem um fim; antes um deslocamento, uma cessão, um transe. Em suma, uma ektasis: um êxtase vivido pelos protagonistas e pelos espectadores.

Título original: Tardes de soledad Título internacional:  Realização: Albert Serra  Documentário Duração: 125 min. Espanha/França/Portugal, 2024

[Crítica originalmente publicada a 29 de Maio de 2025]

© Nitrato Filmes

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