Hollywood anda à procura de novos heróis. Com o desgaste das fórmulas de super-heróis da Marvel e da DC, os estúdios voltam-se para os videojogos, uma mina de ouro capaz de transformar a nostalgia de várias gerações em receitas de milhares de milhões. Depois dos fenómenos de «Super Mario Bros. – O Filme» e «Minecraft», não será de estranhar que River Raid, Pac-Man, Alex Kidd e Pitfall venham a reclamar o seu lugar no grande ecrã. A próxima fronteira desta ofensiva passa por «Street Fighter», uma saga nascida nos salões de jogos que cruza o desporto com a violência e faz da pancadaria uma forma de espectáculo.
Criado em 1987 pela japonesa Capcom, «Street Fighter» só atingiu a dimensão de fenómeno global com «Street Fighter II», em 1991. Ryu, Ken, Chun-Li, Guile e Blanka tornaram-se figuras de culto, enquanto golpes como o Hadouken — uma descarga de energia projectada pelas mãos — entraram no vocabulário de uma geração habituada a gastar moedas nas máquinas de arcada. A mecânica era simples, mas viciante: dois adversários, um cenário, reflexos apurados e a promessa de uma vitória conquistada à força dos dedos.

Quase quatro décadas depois, esse universo regressa ao cinema numa superprodução dirigida por Kitao Sakurai, realizador associado à série «Twisted Metal». Com distribuição da Paramount e produção da Legendary Pictures, a nova adaptação aposta num elenco de estrelas e numa conspiração que envolve lutadores de diferentes nacionalidades. A acção decorre em 1993, quando Ryu, interpretado por Andrew Koji, e Ken Masters, vivido por Noah Centineo, são convocados por Chun-Li (Callina Liang) para participar no Torneio do Guerreiro Mundial. Por detrás da competição, porém, esconde-se uma trama que ameaça colocar os combatentes uns contra os outros.
O elenco reflecte a vocação pop da operação. Jason Momoa veste a pele de Blanka, Cody Rhodes interpreta Guile, 50 Cent assume o papel do pugilista Balrog, Roman Reigns dá vida a Akuma e David Dastmalchian encarna o antagonista M. Bison. A reunião de actores, músicos e figuras do espectáculo desportivo traduz a ambição de fazer de «Street Fighter» mais do que uma adaptação: uma marca transversal a públicos distintos.
Não é a primeira tentativa de levar estes combates para o cinema. Em 1994, «Street Fighter: A Batalha Final», protagonizado por Jean-Claude Van Damme, chegou às salas com expectativas elevadas. Raul Julia, no papel de M. Bison, aceitou participar no filme por ser apreciador do videojogo através dos filhos. Morreu de cancro antes da estreia, deixando uma interpretação que acabaria por se tornar um dos elementos mais recordados daquela produção. Apesar de ter arrecadado cerca de 99 milhões de dólares em todo o mundo, perante um orçamento de aproximadamente 35 milhões, o filme não lançou a saga cinematográfica que os produtores desejavam. Em 2009, «Street Fighter: A Lenda de Chun-Li» voltou a falhar esse objectivo.

A conjuntura actual é, contudo, mais favorável. «Super Mario Bros. – O Filme» ultrapassou os 1,3 mil milhões de dólares de receitas em 2023, enquanto «Minecraft – O Filme», lançado em 2025, se aproximou dos mil milhões. A saga «Sonic» também demonstrou que personagens oriundas das consolas conseguem mobilizar espectadores muito para além do público que as conheceu nos jogos.
É neste cenário que «Street Fighter» procura desferir o seu golpe decisivo. A operação comercial estende-se a figuras de acção, roupa, objectos de colecção e máquinas de arcada, explorando tanto a memória dos jogadores veteranos como a curiosidade de novos públicos. O videojogo torna-se, assim, matéria-prima para um ecossistema de entretenimento que não termina quando sobem os créditos.
A aposta revela uma mudança na geografia dos heróis de Hollywood. Se os universos dos super-heróis dão sinais de saturação, os videojogos oferecem personagens reconhecíveis, mitologias prontas a desenvolver e comunidades já formadas. Entre a competição desportiva e a fantasia da violência, «Street Fighter» representa essa passagem: do comando para o ecrã, da ficha para o ingresso.
Título original: Street Fighter
Realização: Kitao Sakurai
Elenco: Noah Centineo, Noah Centineo, Callina Liang, Cody Rhodes, Jason Momoa, Eric André, David Dastmalchian
Duração: 119 min.
Estados Unidos, Japão
2026
Fotos: © 2026 PARAMOUNT PICTURES, CAPCOM AND LEGENDARY. ALL RIGHTS RESERVED.



