De Fabian Stumm conhecíamos o anterior «Ossos e Nomes», estreado por cá em meados no ano passado. Essa primeira longa-metragem do realizador, ator e argumentista alemão dava-nos, através de uma estrutura coral, a ideia de um cinema delicadamente construído sobre as imperfeições humanas, criando um efeito quase laboratorial através do foco concedido a cada situação, cuidadosamente imaginada e encenada.
Com «Sad Jokes», confirma-se: Stumm é um cineasta devoto da unidade, não apenas do plano, mas da cena, enquanto bloco de vida, ou matéria que interessa observar à lupa. Aqui, interpreta um realizador (pois claro), Joseph, um homem gay que partilha a educação do filho pequeno com a sua melhor amiga, mãe do menino. Entre as dores domésticas e o trabalho, ele tenta atirar-se a um novo filme, dizendo ao produtor que desta vez está inclinado para a comédia… Quando o argumento chega às mãos desse avaliador do projeto, uma daquelas frases típicas de quem subestima o espectador acaba por lhe sair da boca: “O público tem de perceber o filme”. Pelos vistos, no papel, é incompreensível.

O mesmo não se pode dizer de «Sad Jokes». Stumm organiza a vida da sua personagem em momentos que, por vezes, dão azo ao slapstick, como seja, o dedo entalado do realizador numa máquina automática de snacks – número cómico que se prolonga no hospital, com uma mulher de braços partidos –, um encontro sexual constantemente interrompido, ou uma briga de namoradas, junto de convivas, no final da apresentação do filme em que narraram a sua história feliz.
Stumm tem olho para o humor que atravessa a nossa condição quotidiana. Mas isso não significa, de modo algum, que «Sad Jokes» se arrume nessa categoria simples, desambiguada. O jogo do realizador passa por uma revelação suave da tristeza que nos define. Uma revelação que tem qualquer coisa de artesanal, surgindo numa sucessão de enquadramentos – os tais blocos de vida – que parecem contrariar a fluidez da realidade. Cada cena é um concentrado de dor, ternura, frustração ou engano, que se impõe como matéria de cinema autorreflexivo. Veja-se, para que serve a cena de Joseph com o filho em frente a uma estante de livros e DVDs senão para pegar no «Feiticeiro de Oz», «Carrie» e a série «Comédias e Provérbios» de Rohmer, em jeito de pistas cinéfilas?
«Sad Jokes» é cinema de economia sentimental, despojado de efeitos especiais, feito por quem se inspira no teatro natural da existência.
TÍTULO NACIONAL: Sad Jokes
TÍTULO ORIGINAL: Sad Jokes
REALIZAÇÃO: Fabian Stumm
ELENCO: Fabian Stumm, Haley Louise Jones, Ulrica Flach
ORIGEM: Alemanha
DURAÇÃO: 96 min.
ANO: 2024



