Sejam melhores ou piores as adaptações, a literatura (e a vida) de Virginia Woolf no grande ecrã transporta sempre consigo um ar de modernidade. Desde logo, espíritos avessos às convenções, identidades fluídas, e mulheres cuja melancolia contém um inconformismo latente. Embora clássica na estrutura – uma vez que se inscreve na tradição do romance inglês –, a segunda obra da escritora, Noite e Dia, denotava já esse olhar aos duelos interiores, que tornam o corpo feminino particularmente fervilhante debaixo dos modos e vestuário numa Londres eduardiana. E é esse mesmo romance, nunca antes adaptado, que nos chega agora numa simpática e fantasiosa produção, também ela “tradicionalmente inglesa”, mas refrescante na leitura das personagens.
No livro, Katharine Hilbery, a jovem com “um ar de decisão e compostura, uma combinação de qualidades que sugeria um carácter muito marcado, que não tinha o propósito de fazer sentir‑se à vontade um jovem que mal a conhecia”, não é a única protagonista da história. Condenada à vida enfadonha dos pais, mediante a obrigação de se casar, ela aparece aí acompanhada por uma figura de contraste, Mary Datchet, que se livrou do casamento e encontrou no movimento pelos direitos das mulheres um modo de vida. Será também assim no filme?

No «Noite e Dia» de Tina Gharavi (com argumento de Justine Waddell), Katharine (Haley Bennett) é claramente a personagem principal; Mary Datchet surge a dada altura como boa conselheira, mas é na jovem à procura de emancipação que tudo se concentra. E aqui o desejo de fuga ao patriarcado combina-se com o desejo pela ciência, ou não fosse Katharine uma astrónoma autodidata (pista apenas lançada no livro), que tenta fazer avançar o lugar da mulher nesse clube masculino da academia científica. Onde fica então o amor? A interrogação lançada pelo romance encontra a sua leve expressão nesta comédia romântica, que preserva, ainda assim, algo da melancolia presente no fundo das palavras de Woolf. Com um toquezinho pop (não exagerado), uma certa energia ativa e um charme simples, «Noite e Dia» não se deixa perturbar por questões de fidelidade ao texto da autora inglesa. E se isso poderia ser um problema válido num filme de pendor mais dramático, a verdade é que neste tipo de produções, quando bem confecionadas, como é o caso, permite cores alternativas e uma alegria romântica – no sentido da autonomia feminina – que é infinitamente agradável. Virginia Woolf está, afinal, nos detalhes.
TÍTULO NACIONAL: Noite e Dia
TÍTULO ORIGINAL: Virginia Woolf’s Night & Day
REALIZAÇÃO: Tina Gharavi
ELENCO: Haley Bennett, Timothy Spall, Jennifer Saunders
ORIGEM: Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha
DURAÇÃO: 95 min.
ANO: 2026



