Há filmes que procuram contar uma história e há filmes que procuram conter um mundo. «In the Hand of Dante/Pela Mão de Dante», realizado por Julien Schnabel, pertence claramente à segunda categoria. Adaptando do titubeante romance homónimo de Nick Tosches, Schnabel constrói uma obra ambiciosa, excessiva, irregular e fascinante, na qual se cruzam a violência mafiosa, a cupidez do mercado de arte, a espiritualidade, a criação artística e a própria figura tutelar do divino Dante Alighieri. O resultado é um filme que oscila permanentemente entre a revelação e o caos, entre o génio visionário e a dispersão narrativa.
Desde os seus primeiros trabalhos cinematográficos, Schnabel demonstrou uma inclinação para o retrato de figuras consumidas por uma vocação absoluta. Em «Basquiat» (1996), «Antes que Anoiteça» (2000) ou «O Escafandro e a Borboleta» (2007), o realizador procurava traduzir cinematograficamente estados de consciência extremos. Em «Pela Mão de Dante», essa tendência atinge uma dimensão quase totalizante. O filme não se limita a acompanhar a descoberta de um alegado manuscrito original da “Divina Comédia”; transforma essa procura numa descida aos infernos contemporâneos, onde a mercantilização cúpida e banalizante das grandes produções artísticas da Humanidade lhes drena o Sublime.

A premissa parece seguir uma linha que se já viu no grotescamente abracadabrante «O Código Da Vinci» (Dan Brown, 2003/ Ron Howard, 2006). O manuscrito original de “A Divina Comédia” surge no submundo criminoso de Nova Iorque e desencadeia uma cadeia de acontecimentos que envolve académicos e mafiosos. Paralelamente, o próprio Dante (Oscar Isaac) surge como personagem, estabelecendo um diálogo temporal entre o poeta medieval e 2001: um directo dos ataques de 9 de Setembro ancoram o momento preciso. Esta estrutura oferece possibilidades quase ilimitadas, mas é precisamente aí que reside uma das maiores fragilidades do filme. Schnabel parece incapaz de resistir a qualquer uma das ideias que encontra pelo caminho. Cada tema é desenvolvido como se fosse o centro da obra. A reflexão sobre a autoria textual conduz a uma meditação sobre a criação artística; esta abre espaço para uma exploração da violência; a violência conduz à espiritualidade; a espiritualidade convoca a biografia de Dante; e a biografia do poeta regressa à questão da autenticidade literária. O filme avança por acumulação, não por síntese. Esta proliferação de linhas narrativas acaba por afectar o ritmo e a clareza dramática. Há momentos em que o espectador sente que está perante três ou quatro filmes distintos, todos eles potencialmente interessantes, mas incapazes de coexistir harmoniosamente. Schnabel filma cada sequência com a convicção de quem acredita ter encontrado uma verdade essencial, mas raramente estabelece uma hierarquia entre essas verdades. O resultado é uma obra que constantemente se expande, sem nunca encontrar um verdadeiro centro de gravidade.
Visualmente, contudo, «Pela Mão de Dante» confirma o talento singular do realizador. Pintor antes de ser cineasta, Schnabel possui uma sensibilidade plástica rara no cinema contemporâneo. As imagens apresentam uma textura quase táctil, como se fossem quadros em permanente transformação. A luz, os enquadramentos e a composição cromática conferem ao filme uma dimensão material que contrasta com a abstracção das suas preocupações intelectuais. O guarda-roupa é de um autencidade e materialidade notáveis. Mesmo quando a narrativa vacila, permanece o prazer de observar um cineasta que pensa através das imagens.

O elenco contribui igualmente para sustentar o interesse da obra. As interpretações possuem uma intensidade que impede o filme de se afundar completamente sob o peso das suas próprias ambições. A presença de actores como Oscar Isaac, Gerard Butler, Al Pacino, John Malkovich e Martin Scorsese confere ao filme uma densidade interpretativa rara. Cada um deles traz consigo um peso artístico e uma presença cénica que ajudam a sustentar uma narrativa frequentemente fragmentária, conseguindo dar espessura humana a personagens que, por vezes, parecem existir mais como veículos de ideias do que como indivíduos plenamente desenvolvidos. Isaac destaca-se pela intensidade introspectiva, enquanto Pacino e Malkovich oferecem momentos de grande autoridade dramática, lembrando a dimensão quase operática que Schnabel procura alcançar. Menos conseguida é a prestação de Gal Gadot. Num elenco dominado por actores capazes de habitar as ambiguidades morais e espirituais da narrativa, a actriz surge frequentemente limitada por um registo excessivamente uniforme (e um medonhamente artificial sotaque italiano), incapaz de acompanhar a complexidade emocional exigida pela personagem. A sua interpretação revela-se rígida e pouco convincente, tornando-se um dos poucos elementos verdadeiramente dissonantes num conjunto de grande qualidade.
O busílis não reside, portanto, na ambição. Pelo contrário: é impossível não admirar um filme que procura estabelecer pontes entre uma obra maior da Humanidade, a cultura do início do terceiro Milénio e as inquietações eternas do espírito humano. A questão está na incapacidade de disciplinar essa ambição. Schnabel filma como quem receia deixar escapar qualquer associação, qualquer reflexão, qualquer imagem significativa. O resultado aproxima-se mais de uma torrente de consciência do que de uma construção dramática rigorosa. Essa característica torna a experiência simultaneamente estimulante e frustrante. Há sequências de enorme beleza e poder sugestivo, capazes de justificar por si só a existência do filme. Mas também há momentos em que a narrativa parece perder-se nos seus próprios corredores, como num palimpsesto molhado onde dificilmente se lê o texto original. A procura de Dante transforma-se, ironicamente, numa procura de foco.

No final, «Pela Mão de Dante» surge como uma obra profundamente schnabeliana: exuberante, excessiva, apaixonada, desigual e intelectualmente voraz. É um filme que deseja abarcar demasiadas coisas ao mesmo tempo e que por isso raramente consegue aprofundar plenamente qualquer uma delas. A sua grandeza e a sua limitação coincidem. Talvez a melhor forma de compreender o filme seja com as palavras do próprio Dante: “Pois o homem em quem um pensamento nasce sobre outro pensamento afasta de si o alvo, porque o ardor de um enfraquece o outro.”» (in “Purgatório”, canto V, versos 16-18) Schnabel parece ter querido colocar no ecrã todos os pensamentos que o assaltavam. Porém, ao querer mostrar tanto e pensar tantas coisas ao mesmo tempo, o filme acabou por se diluir, deixando que o fogo de cada ideia enfraquecesse a intensidade das restantes. Mas importa lembrar que estes versos são igualmente uma advertência contra as vozes críticas. Talvez, por isso, a última lição de Dante seja também a mais incómoda para o crítico: a de que nem sempre é a obra que falha o seu alvo. Talvez seja eu quem não a compreendeu…
Título original: In the Hand of Dante
Realização: Julian Schnabel
Elenco: Oscar Isaac, Al Pacino, Gerard Butler, John Malkovich, Gal Gadot, Martin Scorsese, Jason Momoa
Duração: 150 min.
Reino Unido/ Itália/ EUA, 2025
Photo by Alex Majoli/ITHOD Productions Ltd./Alex Majoli/ITHOD Productions – © 2026 ITHOD Productions Ltd.
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