Ao visionar o universo ficcional de Southland, a primeira memória que vai saltar na mente de muitos espectadores é o classicismo de A Balada de Hill Street (1981). Southland, precisa de mais anos para atingir esse estatuto mas a primeira e segunda temporada, reunidas nesta edição, são uma prova que estamos perante algo muito especial. Os criadores tentaram fazer uma série sobre Los Angeles e para Los Angeles, a vertente multiétnica da cidade está imiscuída em cada episódio que segue a vida de polícias de rua e detectives de uma esquadra da cidade. A narrativa é feita ao nível da rua e da visão destes personagens, os crimes de cada episódio e os arcos de história policiais (um em cada temporada) são um trampolim para a evolução dos personagens. A série foca duas vertentes dos protagonistas: o combate ao crime e o interior das suas privadas, olhando a desafios pessoais, relações e frustrações num triângulo formado entre a vida, a sociedade e o sistema. A dinâmica do enredo debruça-se sobre parelhas com dois elementos, com narrativas distintas ou em conjunto. A complexidade destes personagens daria para cada um deles ter uma série só para si. A escolha de actores foi um tiro certeiro, escolheram-se corações e não apenas caras mimadas, o elenco dramático é de se retirar o chapéu, a destacar, entre muitos, o diálogo emocional de Michael Cudlitz e Regina King. Os rostos destes personagens espelham intensidade e as vulnerabilidades, procura-se transmitir o realismo a cada plano, os actores fazem-no bem demais. O único defeito desta série é pecar por excesso com o seu realismo explícito. As filmagens nos locais permitem que os actores e os espectadores possam absorver a sinergia da pressão das ruas, a intimidação dos gangs e a diversidade de uma cidade, a cada episódio, somos submergidos para uma L.A. suja e decadente. O ponto de vista estético respeita a energia e a adrenalina da actividade pessoal e profissional com a captura da imagem num formato de guerrilha a la O Protector (outra excelente série policial desenrolada em L.A.), os ângulos cortados e a câmara digital proporcionam o tão ambicionado realismo. Num panorama televisivo dominado por séries policiais mais preocupadas com a dinâmica do crime e na investigação forense, Southland, foca o impacto do crime na vida dos personagens, e não deixa ninguém indiferente.

Extras Cenas Eliminadas (6´), onze sequências eliminadas, na sua maioria de curta duração e inéditas, numa série deste calibre este material é invariavelmente de qualidade. Defender o Distintivo (16´), selecção de algumas cenas de personagens chave que são comentadas pelos criadores, interessante ouvir a perspectiva do consultor da série, um ex-policia, Chic Daniel. Southland: Crime Tour (20´), uma viagem até às principais localizações onde foram filmadas a primeira e a segunda série de Southland, na sua maioria marcos históricos da cidade de Los Angeles. Southland: O Reformular dos Dramas Policiais (19´), a equipa técnica e criativa desenha o auto-retrato de uma série policial enraizada em L.A. abordando temas, personagens, localizações, a opção de filmar na rua invés do estúdio e a utilização da revolucionária câmara digital Red One.
[Crítica publicada originalmente na revista Premiere em Dezembro de 2011]





