“Hoka Hey!” (Asa) é um dos maiores lançamentos de 2025, é o meu frontrunner para livro do ano. É um western esplendoroso, a narrativa é envolvente e o desenho é prodigioso. São 200 páginas para ler e reler.
O livro foi criado por um dos autores mais promissores do mundo da banda-desenhada, o francês Neyef (pseudônimo de Romain Maufront). No passado já tinha trabalho em algumas BD´s que tinham os Estados Unidos como pano de fundo mas “Hoka Hey!” abandona o contemporâneo e mergulha na América dos finais do século XIX, a população nativa tinha diminuído cerca de 93%, num dos maiores genocídios da História através de doenças trazidas pelo homem branco e das constantes purgas e deportações.
Este é um relato que funde o poder da natureza com a humanidade onde a espiritualidade vai abandonando as pessoas e a mesma vai sendo substituída pela violência da natureza humana. Este percurso vai ser observado através dos olhos de uma pequena criança que é símbolo desta contenda entre o Bem e o Mal. A história tem como protagonista um jovem Lakota, Georges foi criado pelo pastor que administra a sua reserva. Ao mesmo tempo que ele reza ao Senhor Deus nas alturas, aos seus anjos e aos seus exércitos deparamos toda a beleza e as imagens etérea dos prados, da floresta, os montes e os outeiros. A arte de Neyef é divinal.
Georges foi retirado da sua tribo que está confinada a uma reserva, ele é forçado a ser aculturado segundo os costumes protestantes onde se apaga a existência dos princípios existenciais da sua cultura. Ele é um miúdo inteligente, estudou a Bíblia e deseja estudar medicina quando crescer. O jovem faz todos os trabalhos da casa como fosse um escravo amestrado. Num piquenique com o pastor e a sua namorada estes são surpreendidos por Little Knife, um nativo-americano que procura o paradeiro de um individuo que em tempos foi como um irmão para o pastor. Ao longo do livro descobrimos os verdadeiros motivos para a vendetta de Little Knife. Ele faz-se acompanhar de Moon e Sully, um irlandês pouco dado à higiene pessoal mas com um bom coração e leal. Georges assiste ao confronto entre o gang e o pastor e acaba por ser levado pelo grupo de Little Knife.

Inicia-se uma prodigiosa viagem de crescimento na descoberta da identidade e a forma de estar no mundo segundo os ensinamentos da tribo Lakota. Moon e Little Knife estão vestidos como brancos e não da forma tradicional pois seria demasiado fácil identificá-los, seriam um alvo fácil para alguém com uma espingarda. Eles são responsáveis por saquear tudo que pertença a brancos, entre o Wyoming e o Dakota, deixam um rasto de fúria por onde passam. Quando roubam dinheiro queimam imediatamente, atacam as empresas mineiras que exploram o ouro e a prata e as empresas ferroviárias que esquartejam as planícies. Eles não procuram dinheiro apenas um ajuste de contas por tudo aquilo que perderam com a chegada do homem branco. A vingança esta faz parte da cultura pois acalma os seus corações.
Eles continuam a usar as tranças e as penas, o seu modo de vida está a desaparecer e não podem falar a sua língua, as suas casas e roupas tradicionais são proibidas. As penas e as tranças são tudo o que lhes resta, são os seus símbolos, um sinal de insubmissão perante os brancos.
Little Knife é um homem que tem uma invejável precisão no gatilho e aos poucos no decurso da sua viagem pela majestosa paisagem vai ensinando Georges nas artes do seu verdadeiro povo. Little Knife considera que o seu povo é apenas o guardião da Terra, todas as plantas e animais têm um espírito, cada canto da Terra é sagrado, a natureza e eles são um só, fazemos parte do laço sagrado da vida e cada um tem o seu papel. O leitor vai descobrir a afinidade entre Georges e Little Knife, as suas histórias são próximas, ambos cresceram com um pé entre dois mundos. Little Knife ainda está em guerra mas algumas guerras não podem ser tratadas com armas e ele tenta reavivar o índio que existe no coração do miúdo.

É também expressiva e ternurenta a relação de Georges com Moon, a mulher do grupo que também tem um passado muito complicado, mas estabelece um carinho especial pelo miúdo.
Os Lakota respeitam todas as crenças e não tentam converter os outros, é uma viagem de aprendizagem sobre os costumes e o respeito dos Lakota pelo próximo e pela natureza que está imbuída de espíritos. É um desejo que talvez possa ser transportado por um miúdo para que ele possa continuar a viver em harmonia agradecendo à natureza por permitir que exista no mundo.
A maioria das vinhetas deste livro ganham eternidade e são dignas de serem emolduradas, mas mais do que isso têm a capacidade de fazer viajar o leitor para o seio da narrativa. A comunhão entre história e o desenho reproduzem momentos inesquecíveis. Podemos afirmar que a história é bem longa e combina incidentes violentos com as descobertas na iluminação do espírito de uma criança num grande sentido épico deste relato.
Na descoberta desta obra também ficamos a conhecer o poderoso significado da expressão “Hoka Hey!” mas a revelação da mesma ao jovem Georges e a forma como foi apresentada merece ser lida e sentida com as páginas à nossa frente. Mas podemos acrescentar que “Hoka Hey!” passará também a ser sinónimo de uma novela gráfica imperdível. É um western absolutamente memorável. Tem evidentemente um sentido revisionista daquilo que foi transmitido pela arte e a ficção, lembramos que só nos finais do século XX é que a realidade e o que realmente aconteceu no velho oeste começou a ser observada por Hollywood. Neyef criou um retrato amplo do Oeste mas através do olhar dos nativos americanos com uma visão marcada pela injustiça, a vingança e a revolta contra a opressão mas também para lá do ódio o amor, a esperança, a amizade e o respeito pela Natureza.

