SOM DA LIBERDADE

SOM DA LIBERDADE

Poucos filmes foram tão odiados em 2023 do que o fenómeno mais inusitado de bilheteira do ano, «Som da Liberdade», que alcançou uma receita global de US$ 248 milhões, mas fez fístulas na harmonia de muitos grupos pela sua conexão com movimentos religiosos católicos. A exuberante interpretação de Jim Caviezel – alvo de preconceitos por parte da classe artística pela sua participação em «A Paixão de Cristo» [The Passion of the Christ] (2004) e pela sua feroz adesão a credos cristãos da Igreja Católica – não amorteceu os ânimos exaltados. Houve quem associasse a produção a grupos de extrema-direita, a Donald Trump e a Jair Bolsonaro.

A polémica que assombrou «Som da Liberdade» não foi capaz de diluir o seu vigor estético. A sequência é inicial é capaz de fazer frente a qualquer grande filme de terror que tenha como princípio o poder de aterrorizar. O «Som da Liberdade» foi rodado há cinco anos, na Colômbia e na Califórnia, ao custo de US$ 14,5 milhões, esse thriller com essência de melodrama foi dirigido pelo mexicano Alejandro Monteverde, premiado no Festival de Toronto por «Bella», em 2006. O filme lucrou números astronómicos depois de um largo período em fila de espera de produções sem ecrã para serem exibidos. A sua essência religiosa, endossada pela presença de Mel Gibson entre os seus produtores, e o facto de operar sobre um caso real cercado de controvérsias colocou a saga do agente Tim Ballard (papel de Caviezel, sublime em cena) na mira das mais indóceis patrulhas ideológicas.

Nos seus minutos iniciais, surge a referência no ecrã: “Baseado em factos verídicos”. É uma suspensão de qualquer potencial descrença que a plateia venha a ter em relação à descida ao Inferno empreendida por Ballard, um especialista no combate à pedofilia. A crença de que “filhos de Deus não podem ser comprados” move os seus passos depois de salvar uma criança de uma rede de exploradores de menores nos EUA. A tal rede tem como base a Colômbia, é para lá que ele parte a fim de salvar a irmã do rapaz que resgatou. A princípio, tem o induto da Agência de Segurança Homeland Security Investigations (HSI), órgão do governo do Estados Unidos. Mas ao se embrenhar nas entranhas da América Latina, o seu principal aliado passa a ser um antigo transgressor outrora ligado a lavagens dos dólares do narcotráfico, Vampiro, personagem que extrai do ator Bill Camp um desempenho hipnótico. Caviezel e ele têm covalência plena na química cénica. Juntos vão encarar na selva uma célula guerrilheira de forma a defender as crianças ameaçadas por pedófilos. Essa dobradinha garante à narrativa um eco de «Rambo II – A Vingança do Herói» [First Blood Part II] (1985).

«Som da Liberdade» só teve a possibilidade de lançamento no circuito de exibição norte-americano graças aos esforços da Angel Studios, empresa católica de Utah, fundada em 2021. É ela a produtora por trás da produção e da circulação mundial de projetos como a série «The Chosen» (2017).

É inegável o tom retórico e pedagógico do filme. Trata-se de uma aula de publicidade, com um roteiro impecável – de zero obviedade – cuja direção explora de modo hábil a gramática do romance e do suspense. O terço final é enervante e garante a Jim Caviezel deixas para liberar todo o seu talento, na ascese da sua maturidade. É a subida aos céus deste astro.

Título original: Sound of Freedom Realização: Alejandro Monteverde Elenco: Jim Caviezel, Mira Sorvino, Bill Camp Duração: 131 min. EUA/México, 2023