Um thriller jornalístico, de foco político e ambiental, que expõe as chamas invisíveis dos interesses ocultos na fronteira luso-galega. «Lume» estreia dia 19 de junho na Max e dia 20 de junho na RTP 1.
Portugal tem uma longa e trágica relação com o fogo. A cada verão, milhares de hectares de floresta ardem, aldeias ficam cercadas de cinzas, e a dúvida repete-se: quem poderá beneficiar com tamanha devastação? Em alguns casos, para lá da inevitável combinação de negligência, falhas estruturais e planeamento questionável, subsistem também indícios de interesses económicos que poderão recorrer a mão criminosa, para abrir espaço à especulação, aos projetos agrícolas, ou simplesmente ao lucro fácil escondido sob o disfarce do infortúnio natural.
É sobre este terreno incandescente que assenta «Lume», o novo thriller jornalístico da RTP e da HBO Max. A série não se limita a expor a realidade devastadora dos fogos florestais no Norte de Portugal e na Galiza; vai mais fundo, construindo uma intriga em torno de um mistério antigo: a morte de um jovem, anos antes, cuja ligação aos incêndios e aos interesses que os rodeiam vai sendo desenterrada. A linha entre o fogo do presente e os fantasmas do passado vai-se tornando cada vez mais ténue.
Protagonizada por Cristina Castaño no papel de Lucía, uma jornalista que regressa à sua terra natal, Seara, «Lume» conduz o espectador numa investigação onde o jornalismo de investigação colide com o poder instalado. Ao longo da temporada, a protagonista mergulha numa rede de corrupção e violência que ultrapassa fronteiras, expondo as ramificações políticas, económicas e pessoais de um fenómeno que, há demasiado tempo, arde em silêncio nas zonas esquecidas da Raia Seca. Pelo caminho, vai formando relações com personagens como o agente Júlio (Albano Jerónimo) e a misteriosa Maca (Lúcia Moniz).

Abordar o problema dos incêndios em Portugal não é apenas falar de um desastre recorrente, é enfrentar um fenómeno onde convergem falhas políticas, interesses económicos, gestão territorial caótica e, frequentemente, ausência de verdadeira responsabilização. «Lume» arrisca ao tocar nestes pontos com a profundidade que poucas apostas de ficção nacional se atrevem a explorar. Não cede ao impulso fácil de reduzir o fogo a um mero desastre natural ou a uma sucessão de azares climáticos. Pelo contrário, olha para o que se passa antes, durante e depois das chamas, questionando o que permanece intocado nas sombras quando o fumo se dissipa.
É precisamente nesta escolha que reside parte da ousadia da série: integrar as dinâmicas de corrupção, especulação fundiária, redes de interesses obscuros e responsabilidades difusas, sem deixar de oferecer ao espectador uma narrativa envolvente. «Lume» cumpre o difícil equilíbrio entre o entretenimento e a denúncia, sem nunca resvalar para o panfleto. A tensão do thriller mantém o ritmo narrativo e a intriga viva, enquanto o subtexto político e ambiental sustenta o peso dramático, conferindo à série uma relevância que ultrapassa o mero entretenimento.
Em vez de confortar o espectador com explicações fáceis ou narrativas simplistas, «Lume» opta por deixar no ar a inquietação que o próprio tema exige. Num país onde as florestas continuam a arder todos os anos, a série lembra que, por vezes, o maior incêndio não está na serra, mas nos bastidores das decisões que nunca chegam a ser plenamente escrutinadas.
A série inclui ainda nomes como Ricardo Pereira, António Mortágua, João Reis e Diogo Amaral, entre outros.

