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Postal de Cannes – dia 16

De que falamos quando falamos de cinema japonês? Pois bem, antes do mais, de um riquíssimo património que se pode simbolizar através dos nomes Yasujiro Ozu ou Kenji Mizoguchi. O menos que se pode dizer do filme «A Pale View of Hills», de Kei Ishikawa (apresentado na secção “Un Certain Regard”) é que surge como um brilhante herdeiro desse património, nomeadamente através da sua capacidade, de uma só vez realista e poética, de lidar com os traumas da Segunda Guerra Mundial. Estamos perante uma adaptação do primeiro romance de Kasuo Ishiguro, publicado em 1982, construído em torno de uma relação mãe/filha que oscila entre 1953 e 1983, ou seja, Nagasaqui e Londres. É raro encontrarmos no cinema contemporâneo esta depuração formal, tanto mais admirável quanto o ziguezague temporal, mais do que um jogo de flashbacks, funciona como um território afectivo, pleno de contrastes e enigmas, em que as coordenadas do espaço e do tempo estão em permanente transfiguração. Por mim, independentemente daquilo que Cannes ainda tem para mostrar, o filme de Ishikawa ficará, por certo, como uma das mais belas descobertas desta edição de 2025. Sem esquecer que este é um cinema de absoluta devoção pelos seus talentosos intérpretes — o destaque vai para Suzu Hirose, que já conhecíamos, por exemplo, de «A Nossa Irmã Mais Nova» (2015), de Hirokazu Koreeda.

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