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O Pecado Mora em Cima – Sónia Resende

«O Pecado Mora em Cima» é o novo trabalho da produtora Station, sediada no Norte do país, realizado por Rui Pedro Sousa e produzido por Sónia Resende, a grande arquiteta do projeto, iniciado, há dois anos, num almoço com Miguel Falabella e Marisa Orth, estrelas brasileiras que protagonizam em conjunto com Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho esta comédia.

O filme é a adaptação do original «Sentimental» de Cesc Gay e centra-se nas relações de intimidade de dois casais vizinhos de um prédio na cidade do Porto. A produtora e advogada Sónia Resende geriu o projeto desde o início, reuniu apoios privados, escolheu o elenco e participou ativamente na rodagem da obra. A propósito da estreia em salas portuguesas, conversámos com a Sónia sobre a origem do projeto e do guião do filme, assinado por Edson Atahide; a escolha do elenco e o trabalho com os atores e com a equipa técnica; a rodagem de «O Pecado Mora em Cima» nos estúdios da RTP Porto; a temática do filme e ainda revelou aos nossos leitores um episódio inesquecível desta produção nacional, com ambições além-fronteiras.     

«O Pecado Mora em Cima». Conte-nos como tudo começou: desde a ideia inicial do filme até ao início da rodagem.

O filme veio da produtora Filmax – que é quem detêm os direitos do filme «Sentimental» de Cesc Gay, o original. A boa relação que tivemos com a Filmax aquando da produção do filme «Revolução Sem Sangue» pois eles eram nossos coprodutores, levou a que eles nos fizessem a proposta se queríamos trazer para Portugal este remake. Nessa perspetiva, vi o filme – na altura até tinha visto o espanhol e o francês – e gostei muito, sobretudo o francês. A minha ideia foi: já vi que é um projeto interessante trazer para Portugal, é universal pois já foi replicado em vários países. Porém, nós temos um mercado muito pequeno, ou seja, os nossos números de espetadores são reduzidos, ainda por cima com o fenómeno de diminuição de espetadores que os cinemas têm tido. Portanto, decidi pensar em temos estratégicos o projeto da seguinte forma: se isto fala sobre vizinhos, fala sobre relações humanas e no mesmo apartamento, e no mesmo prédio. Pensando na estrutura da sociedade em Portugal, nos dias de hoje, e o que é mais comum termos no nosso prédio vizinhos brasileiros, visto ser uma das maiores comunidades de imigrantes em Portugal. Ainda por cima o idioma é comum. Aí comecei a pensar: vou misturar atores brasileiros e portugueses. Um dia estava em casa, conversa com o meu marido e disse-lhe: “Vou querer o Miguel Falabella e a Marisa Orth para este filme!”. Ele respondeu-me: “Ah está bem, isso é sono”. Falei nisto ao realizador do filme, o Rui Pedro Sousa e a reação dele foi a mesma.

Mas insistiu nesse propósito?

A verdade é que procurei saber quem eram os agentes deles, quem eles eram e curiosamente, eles iam estar em Portugal com uma peça de teatro, «Fica Comigo esta noite». Entrei em contato com o agente, combinamos um almoço com eles, isto passou-se em 2024, no Porto! Falei com eles, com muito receio, pois sou uma produtora recente – a Station tem cerca de dez anos, temos curtas-metragens e uma longa-metragem. A verdade é que sentámos à mesa do almoço e criou-se uma grande empatia, falámos muito abertamente. Não saiu dali nenhuma decisão pois eles ficaram de ponderar sobre o projeto. Mas correu bem, pois a resposta foi positiva! Disseram que tinham gostado do projeto, presumiram que não fosse de um orçamento muito grande, mas que tinham ficado impressionados com a minha ambição e que obviamente tinham gostado do guião.

O projeto candidatou-se a fundos do ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual)?

Candidatou-se, mas não conseguimos ganhar apoios do ICA. Mas já era de prever, pois o ICA tem sempre uma vertente mais autoral e menos comercial. E muito menos comédias. Mas com estes dois atores, sei que vou abrir portas porque são dois rostos muito conhecidos. Portanto, a tarefa seguinte seria reunir verbas para pagar aos atores – foi ao contrário do que os produtores fazem habitualmente que é reunir verbas e depois dizer aos atores e técnicos que só tem aquele orçamento disponível e ou aceitam ou não. Eu não fiz isso: falei com os atores e com a equipa e perguntei quanto seria necessário para fazer durante x semanas para produzir este filme. Juntei o orçamento todo e pensei: “agora só quando tiver este dinheiro todo é que avanço com o filme. Os apoios foram maioritariamente privados. O mecenato é limitado em Portugal e os privados exigem contrapartidas para entrar neste género de projetos.  

Em relação ao argumento do filme, como foi o processo?

Em relação ao argumento, tinha de pensar nalguém que conhecesse a realidade portuguesa e brasileira. E para além disso, não queria uma comédia brejeira. Queria uma comédia inteligente até porque gostei muito da versão francesa e esta é muito mais refinada e elegante. Devo dizer que foi uma sugestão do Miguel Chambel da Cinemundo: a escolha recaiu no Edson Athaide, uma figura da comunicação, da publicidade que já conhecia dos tempos que estudava na faculdade. Falei com o Edson, também com algum receio do cachet ser muito elevado. Criámos, igualmente, uma relação de empatia e os valores foram acessíveis. Aceitou fazer parte do projeto e hoje que vejo o filme, fico muito contente pois veio ao encontro daquilo que queria. Fugiu aos clichés da piada habitual luso-brasileira, foi elegante, fugiu às piadas “javardas”. Foi perspicaz uma vez que pegou na figura do Miguel Falabella: ele é um lírico, adora poesia, e ele colocou a personagem com essa caraterística. As personagens e os diálogos foram todas escritas pelo Edson Athaide, falámos com a Filmax pois estávamos a apresentar um projeto novo: primeiro vai ser o primeiro remake em que se vão colocar duas nacionalidades que não havia no original. Para ser possível exportar para o Brasil. Eles autorizaram e disseram que não vedavam a exportação para o Brasil do nosso filme. Depois autorizaram também a inserção da questão emigração, um tema sensível, ligado à aceitação da diferença. Disseram que sim desde que a questão central da relação entre os vizinhos e da intimidade se mantivesse.

A escolha do elenco: já percebemos que a escolha do Miguel Falabella e da Marisa Orth foi decisiva para o avanço do projeto. Em relação ao casal de portugueses como foi a escolha? Houve casting? Foi uma escolha imediata dos dois protagonistas lusos do filme?

A escolha não foi imediata. O casting foi responsabilidade minha. Não foram as primeiras opções. Havia indisponibilidade duns e doutros. A minha primeira opção para a atriz portuguesa foi a Gabriela Barros. Havia uma preocupação fundamental: se queria exportar o filme para o Brasil, nós percebemos o português do Brasil, mas eles não percebem o nosso. Basta falarmos mais depressa que eles não conseguem perceber. A escolha do Inês surgiu de forma natural, pois depois de ver o filme percebemos que a personagem é ela, tem muito a ver com a atriz Inês Aires Pereira. E ela própria reconheceu. As pessoas que a acompanham nas redes sociais veem que ela é assim, muito extrovertida, muito disruptiva, «fora da caixa». Depois, ela estava na fase do divórcio, muito no Brasil e a forma como comunicava, fez-nos chegar à conclusão que ela era a personagem do filme, que queríamos para o filme. Foi uma escolha assertiva na medida em que percebi que era o perfil dela.

O filme foi rodado nos estúdios do Porto, no centro de produção da RTP Norte, em Gaia. Como correu a rodagem?

Correu bem. Nós estivemos uma parte de exterior também, como se vê no filme, na sala de aula. (no início do filme). Colocamos a personagem do Miguel Falabella como professor de Português, por ele ser um lírico. Quando tinha de encontrar uma sala de aula, como diretora de casting tinha de encontrar um conjunto de alunos, adolescentes, que fizessem com o Falabella essa sequência inicial. Achei que era bom ir a uma escola de teatro e dar uma oportunidade a estes miúdos. Então, foi à academia de música de Vilar do paraíso, uma das mais conhecidas na zona norte do país. E foram esses mesmos alunos de teatro que participaram nessa sequência inicial da sala de aula. Filmámos também nas ruas do Porto, e depois, claro, dentro do apartamento, onde se passa a quase totalidade da ação do filme. O centro ou o coração do filme é o apartamento que foi filmado no centro de estúdios do Porto. Durou duas semanas e meia. Ao mesmo tempo que íamos filmando, íamos montando o filme: tínhamos ao lado dois editores que iam fazendo seleção de imagens e editando. O que acontecia é que ao final do dia de rodagem tanto o realizador como eu e o diretor de fotografia ficávamos um pouco mais tempo já para ver as cenas editadas que tínhamos filmado no dia anterior. Filmámos e editámos por ordem cronológica! Exceto na sequência do quarto que teve de ficar para a cena final porque tínhamos de desmontar o cenário da sala para a cena do quarto. Foi o único parâmetro que ficou fora da narrativa.

Há algum episódio da rodagem que gostasse de partilhar com os leitores da Revista METROPOLIS?

Acho que foi aquela cena na qual o Miguel Falabella perde a compostura e até ameaça atirar-se do segundo andar. Essa cena tivemos de gravar imensas vezes porque toda a gente no set de rodagem se ria! Quase como se o Falabella tivesse voltado a encarnar a personagem do Caco Antibes, do programa «Sai de Baixo». Todos nós estamos à espera disso. É quando ele se torna mais excêntrico, no filme. Tivemos de filmar isso imensas vezes! Por isso quando conseguimos foi uma alegria muito grande. Foi a cena mais memorável. Foi a cena que ficou mais na memória de todos, porque toda a gente se ria e não conseguíamos o take perfeito. Foi uma cena mais demorada.

Como é que foi trabalhar com o elenco? Há diferenças dos mais velhos para os mais jovens?

Do elenco nenhum deles é vedeta. Estava com algum receio dos atores brasileiros tivessem um pouco esse perfil de vedeta. Mas não! O que é que ajudou a que fosse mais simples o trabalho com o elenco? O fato de termos criado uma relação quase pessoal com quase dois anos de antecedência, sobretudo com o Miguel e com a Marisa ajudou a que eles viessem para as filmagens já quase como meus amigos. Isso criou uma relação próxima que ajudou a que no realizador Rui Pedro Sousa não tivesse receio de os dirigir no set de rodagem. E tivemos a sorte dos quatro atores terem se dado tão bem – porque nem a Inês Aires Pereira nem o Pedro Carvalho se conheciam. Os dias de ensaio foram muito importantes e o Rui teve essa capacidade de criar algumas dinâmicas de grupo antes de procurar entrar na cena em si que os ajudem a desbloquear.

A Sónia foi a grande arquiteta deste projeto. Como geriu o seu tempo familiar e pessoal e a produção deste filme?

Além de produtora, sou advogada – exerço sobretudo na área do direito de autor e contratos de trabalho artístico e sou mãe dum rapaz adolescente. Tenho uma faceta que às vezes até me comparam a do anterior Presidente da República Prof. Marcelo Rebelo de Sousa: durmo muito poucas horas! Durmo cinco horas e para mim é suficiente. Mas é uma questão fisiológica. Portanto, durmo poucas horas e parece que o meu tempo rende mais. Acordo às seis da manhã e vou treinar. Depois faço a gestão da minha agenda da seguinte forma: umas horas é para tratar do filme, outras é para a advocacia. Muitas vezes depois de treinar, começo a trabalhar às oito horas e consigo por vezes despachar-me do trabalho às quatro da tarde e ter tempo de ir buscar o meu filho à escola e passar tempo com ele. Consigo um equilíbrio graças à disciplina que tenho em relação às horas.

A sua produtora- a Station- existe desde 2015. Qual o balanço do trabalho feito até aqui? Quais os maiores desafios até agora? E no futuro?

Os maiores desafios foram de construir um currículo que nos dê credibilidade pois por muito que tenhamos no nosso currículo pessoal algumas produções anteriores, que tenhamos feito com outros produtores (trabalhei na LightBox com o «Balas e Bolinhos 3», com o Leonel Vieira nalguns projetos) mas a verdade é que ao iniciar uma produtora, quando fosse apresentar este projeto, era isso que ia valer – quantos anos tem a produtora, que projetos tem… Então começamos a trilhar um caminho primeiro com várias curtas-metragens, fizemos cinco curtas-metragens com o nosso próprio investimento que reunimos com publicidade que fizemos, ou vídeos institucionais… Foi o Rui Pedro Sousa que realizou. Até porque é o meu sócio na produtora. Mas para dar o passo seguinte: uma longa-metragem e para ir ao ICA candidatar-me a apoio tinha conhecer o tipo de jurí do ICA e estava a decorrer as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Entrámos nessa estratégia de avançar com esse filme («Revolução Sem Sangue») porque tem perfil para o ICA e para além disso são os 50 anos da revolução, por isso faz todo o sentido ser feito agora. Em suma, a estratégia passou por numa primeira fase construir currículo, numa segunda fase ter um filme com perfil do ICA e correu muito bem o filme anterior. Permitiu-nos também criar uma confiança com os parceiros como a RTP e a Cinemundo e com a própria NOS.

Em relação à temática do filme: é importante dessacralizar as questões ligadas ao sexo, aos afetos e à intimidade? Esse foi um objetivo do «Pecado Mora em Cima»? Isso é importante?

É tão importante na medida em que o nosso filme é a nona versão do remake. Já estão outras para sair em 2027. É tão importante que todos tem aderido a esta temática. O Cesc Gay foi muito inteligente – que começou por adaptar ao teatro e depois acabou por se transformar em filme – em ter pegado numa temática destas! Se formos a pegar nestes temas, sentimos que os nossos pais viveram numa era de conservadorismo, que os casais casavam e era para a vida. Não se falava de sexo, não se falava de nada. Nós questionávamos isso. As novas gerações pensam de outra forma, e defendem a existência de relações abertas e assim dá para experimentar. As taxas de divórcio aumentaram. Mas, na verdade, as pessoas também não são felizes. No filme procuramos perceber onde está o equilíbrio nas relações, pois vemos o casal mais novo e mais aberto a ter inveja da relação do casal mais velho e mais conservador, pois reconhecem que estes têm uma relação verdadeira, discutem! Por seu lado, o casal mais velho e mais conservador chega à conclusão que não têm relações sexuais há algum tempo, apesar de terem uma relação mais real!

Qual o legado mais importante que sente que vai deixar, no futuro: os filmes que produziu? Ou o que foi ao longo da vida, o seu legado como pessoa?

Como disse, gostava de deixar um legado enquanto pessoa. Claro que tenho muito orgulho nas obras que ajudo a criar e espero que algumas possam ficar na memória das pessoas. Mas, no fim, aquilo que verdadeiramente me importa é ser recordada como alguém que foi honesta, que honrou os seus compromissos, que respeitou as pessoas com quem trabalhou e que procurou fazer sempre as coisas da forma certa, mesmo quando isso não era o caminho mais fácil. E, acima de tudo, gostava que um dia o meu filho olhasse para o meu percurso e sentisse orgulho, não apenas naquilo que a mãe conseguiu fazer, mas sobretudo na pessoa que foi. Se as obras que deixo ajudam a contar essa história, tanto melhor. Mas o legado que mais importa não está nos filmes, está nas pessoas.  

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